| Além
do Ego
Entrevista
feita por Jomar Morais - Planeta Jota
http://www.planetajota.jor.br
A
terapia transpessoal usa estados alterados de consciência
e regressões a "vidas passadas" para curar traumas
e neuroses. Acompanhe o trabalho do especialista inglês
Dr. Roger Woolger e conheça as idéias em que se
baseia esse novo tipo de tratamento psicológico.
Sigmund
Freud, talvez, sentiria arrepios - ou sacaria logo uma explicação
baseada em algum desvio da libido. Um psiquiatra fisiologista, daqueles
que adoram prescrever Prozac para qualquer paciente, certamente
reagiria com um riso zombeteiro. Como jornalista, estou curioso
e um tanto perplexo ante a cena insólita, mas devo admitir:
se em meu lugar estivesse Carl Jung, um dos pioneiros da psicanálise
que decidiu ir além da fronteira estabelecida por Freud,
muito provavelmente ele estaria à vontade para testar aqui
suas teorias inusitadas, como a do inconsciente coletivo.
Eis
a cena: no centro do salão, deitada sobre a cerâmica
fria, a jovem Maria (nome fictício, por razões óbvias)
tem os olhos marejados e carrega na face uma expressão de
angústia enquanto fala de assuntos estranhos à pequena
platéia.
-
Quero o meu filho – diz, soluçando.
-
Aqui está ele – responde, em inglês, auxiliado
por um tradutor, um senhor de voz grave, ora fraternal e meiga,
ora firme e imperativa, que coloca suavemente sobre o colo da jovem
um pacote de toalhas enroladas.
Mais
lágrimas. Maria abraça os panos como se fossem um
bebê. Sua expressão agora é de ternura e calma.
Ainda
há pouco, seu relato fora dramático. Entre os presentes,
houve até quem chorasse com ela. Estimulada por perguntas
do gringo calvo e sexagenário, mas de aparência jovial,
Maria falou de um passado não localizado, permeado de emoção.
Havia sido uma garota pobre que se apaixonara por um homem casado,
de linhagem nobre, e por causa disso acabou perseguida pela rival
e, depois, abandonada pelo amante que, para não deixar vestígios
da união, sequestrou-lhe o filho recém-nascido. Um
trauma imenso que o senhor de voz grave esforça-se para fazê-la
superar mediante conselhos que lembrariam uma sessão corriqueira
de psicoterapia, não fosse por um detalhe: Maria não
estava falando de Maria, mas de uma existência pregressa na
qual a mesma mente, agora tumultuada por lembranças remotas,
sustentou outra personagem no palco da vida.
Vidas
passadas? Reencarnação? Afinal, estamos falando de
Espiritismo, de parapsicologia, de alguma religião do Oriente?
Não. Isto é psicologia transpessoal. O salão
onde os fatos se passam pertence a um spa encravado no meio da mata
atlântica, a 50 quilômetros de Recife, e é aqui
que um grupo de 20 pessoas, a maioria psicólogos de formação
tradicional, aprende com o inglês Roger Woolger os fundamentos
e as técnicas da escola transpessoal, um híbrido das
idéias de Jung e dos pesquisadores americanos e europeus
que na década de 60 analisaram a psique humana a partir de
estados alterados de consciência. Transe, insights, visões
e lembranças de vidas anteriores – manifestações
que um psiquiatra ou um psicanalista ortodoxos não hesitariam
em rotular de patológicas - são encarados pelo professor
e seus alunos com absoluta naturalidade e reconhecidos como expressões
da natureza mais profunda do ser, o território da espiritualidade.
Através deles, acreditam, o homem pode chegar à resolução
de seus conflitos internos e à cura de distúrbios
psicossomáticos. "Freud desbravou áreas muito
importantes, como a da sexualidade infantil, mas foi Jung quem percebeu
que todas as nossas neuroses são de natureza espiritual",
diz Woolger.
Formado
em psicologia pela Universidade Oxford, na Inglaterra, Woolger começou
a carreira como psicanalista junguiano. Mais tarde, estudou o budismo,
obteve o doutorado em religiões comparadas pela Universidade
de Londres e, desde a década passada, dedica-se à
formação de terapeutas transpessoais em vários
países através de seu Woolger Training International.
Escreveu, entre outros, o livro As vidas alma, obra na qual resume
suas idéias e a técnica de "terapia regressiva
integral", uma espécie de psicanálise do espírito.
Sua tese é simples: há dramas inacabados cujos resíduos
a alma carrega de um corpo para o outro, provocando receios, doenças
e agressividade. A explicação para esse fenômeno,
segundo Woolger, está nas camadas cada vez mais profundas
do inconsciente descobertas pelos pesquisadores modernos. É
nessas faixas que se encontra o que Jung chamava de inconsciente
coletivo, conjunto de marcas ou impressões que funcionam
como uma espécie de DNA psíquico da humanidade, expressado
nas mitologias de todos os povos, nos temores e nas aspirações
coletivas. E é lá também que pedaços
de antigas histórias individuais continuariam a ecoar no
presente das pessoas.
A
forma de superar esses traumas, conforme Woolger, é revivê-los,
enfrentá-los e entendê-los através da regressão,
perdendo-se assim o medo inconsciente de vivenciá-los outra
vez no cotidiano. Quando isso ocorre, desaparecem as fobias, as
dores inexplicáveis e outros sintomas gerados por velhas
cicatrizes da alma. No caso de Maria, o episódio do amante
sequestrador estaria por trás de seu complicado relacionamento
atual com os homens, caracterizado por profunda desconfiança
e uma boa dose de agressividade que a impedem de manter uma relação
duradoura e serena com os namorados. Se ela conseguiu livrar-se
dos sintomas neuróticos após a regressão, ainda
não se sabe (horas depois da sessão, a jovem, que
é também psicóloga e aluna de Woolger, continuava
a sentir enjôos e a vomitar, sinalizando o forte impacto emocional
da experiência), mas o terapeuta afirma que seu portfólio
está repleto de casos de pacientes que se curaram de distúrbios
físicos e psíquicos desse modo.
A
psicologia transpessoal, como o próprio nome sugere, aborda
o ser humano numa perspectiva que transcende o ego (o "eu",
caracterizado por forte senso de identidade) e a consciência
de vigília, a chamada consciência normal. A consciência
é vista como um campo ou espectro, semelhante ao espectro
eletromagnético, onde cada nível ou "freqüência"
manifestaria um modo de percepção. Cabe ao terapeuta
levar em conta as diferentes percepções do paciente,
mesmo aquelas derivadas de estados tidos como anormais ou doentios,
e ajudá-lo a atingir níveis superiores de consciência,
nos quais o autoconhecimento e o sentido de unicidade liberam o
indivíduo dos conflitos egóicos, proporcionando-lhe
uma vida serena e prazerosa.
Não
é tarefa fácil, a julgar pela herança legada
por nossos ancestrais. "Guerras, escravidão e abusos
diversos cometidos durante séculos deixaram feridas no inconsciente
coletivo que hoje contribuem para as depressões coletivas
e a atmosfera psíquica conturbada nas sociedades industriais",
afirma Woolger. "Como se dizia em Roma, há medo em todos
os lugares porque os bárbaros estão às portas".
Ao mesmo tempo, a fixação em aspectos inferiores da
consciência impede que o homem realize a autocrítica
e dê um salto qualitativo. No nível do ego, que caracteriza
a nossa "normalidade", a pessoa tende a identificar-se
não exatamente consigo mesma e com o seu corpo, dizem os
psicólogos transpessoais, mas com uma representação
mental que ela aceita como sendo o seu "eu", diferente
e independente de tudo e de todos. O apego a essa auto-imagem determina
que as relações interpessoais só devem ser
mantidas se houver vantagem específica para o ego, estabelecendo
assim uma barreira entre o indivíduo e os outros, fato que
está na raiz dos processos de angústia e ansiedade.
"Nas sociedades industriais, as pessoas estão desconectadas
de suas necessidades profundas, inseguras e dependentes de coisas
superficiais", lembra Woolger.
É
possível, no entanto, evoluir desse ponto para o chamado
nível biossocial, marcado pela preocupação
com os aspectos do ambiente natural e social, e daí para
o nível existencial, em que emerge um senso de identidade
superior, responsável pelos ideais humanistas e o desenvolvimento
das potencialidades ligadas à emoção e à
razão. No nível transpessoal, enfim, dá-se
a expansão da consciência para além das fronteiras
do ego, correspondendo à identificação com
o meio ambiente, onde tudo se mostra interligado de forma sutil
e não linear.
A
questão é como alcançar tais níveis
superiores, um ponto que divide os terapeutas transpessoais. Há
quem acredite que não convém escarafunchar os porões
da mente em busca de traumas desta ou de vidas passadas, mas apenas
elevar o padrão de percepção através
de estados alterados de consciência, como o alcançado
durante a meditação, ou do cultivo das emoções
e pensamentos positivos. É o caso da antropóloga e
doutora em psicologia Susan Andrews, que mantém em Porangaba,
no estado de São Paulo, o projeto Visão do Futuro,
espécie de spa destinado a treinamentos antiestresse e ao
desenvolvimento dos níveis superiores da consciência.
"O que importa não é voltar ao passado, mas levar
a mente a projetar imagens positivas", diz Susan. "O universo
é holográfico e todas as imagens acabam se materializando
algum dia". Além disso, a rememoração
de antigos traumas desencadearia emoções negativas
e desequilíbrios químicos que põem em risco
a saúde mental e física do paciente. "Um único
impulso de raiva é capaz de deprimir o nosso sistema imunológico
durante seis horas", diz Susan.
Woolger,
que utiliza em seus trabalhos técnicas de psicodrama e as
idéias de William Reich acerca das energias bloqueadas no
corpo, concorda que as regressões podem oferecer risco a
pessoas muito instáveis, que não suportariam a carga
emocional (o que também ocorre nas terapias convencionais),
mas rebate o argumento da colega americana. "Há gente
na transpessoal querendo ir logo para o espírito e para a
luz, sem tratar as feridas, mas isso pode ser apenas um modo de
fugir dos problemas", afirma. Mesmo as tradições
espirituais esotéricas, como o budismo e o sufismo, segundo
o terapeuta, não optam pela negação da dor.
"Os budistas começam olhando para o sofrimento de todos
os seres e os sufis, que formam o segmento iniciático muçulmano,
costumam perguntar: você já chorou esta semana?"
Apesar
de incluir aspectos relacionados à reencarnação,
um ensinamento basilar em religiões como o Espiritismo, de
Allan Kardec, a terapia regressiva de Woolger deve ser vista, antes
de tudo, como um meio de promover a catarse, processo utilizado
em quase todos os tipos de psicoterapia. "Não faço
regressão para provar que a reencarnação existe",
diz o psicólogo. "Isso seria pesquisa científica
e meu objetivo é chegar pela catarse à liberação
dos traumas das pessoas". Para Woolger, pouco importa se os
fatos lembrados pelo paciente ocorreram na sua infância ou
há séculos, se são mesmo fatos de sua história
individual ou fantasias. O importante é que eles venham à
tona e a energia seja desbloqueada. "Quando o assunto é
reencarnação, prefiro concordar com os budistas",
conclui. "Não há um ego que reencarna. Só
as neuroses reencarnam".
A
formação da escola transpessoal levou décadas,
mas tanto Woolger quanto Susan reconhecem: ainda não há
uma unidade substancial que pelo menos reduza as polêmicas
que cercam a sua prática. Tudo começou quando Jung,
na década de 1920, convenceu-se de que a abordagem freudiana
dos fenômenos psíquicos - estritamente histórica
e determinística - deixava muitas lacunas, que ele se propôs
a preencher com o conceito de sincronicidade, uma explicação
para a ligação não-causal entre eventos, como
nas coincidências separadas no tempo e no espaço. Na
época, a física moderna começava a considerar
novos paradigmas sobre a natureza do mundo físico e Jung,
que também se interessava por esse tipo de estudo, chegou
a trocar idéias com Albert Einstein sobre sincronicidade.
Só 40 anos depois, no entanto, as pesquisas de estados alterados
de consciência – inicialmente provocados com drogas
psicodélicas, como o LSD -, e o estudo das experiências
místicas de pico permitiram a estudiosos como Abraham Maslow,
Stanislav Grof e Ken Wilber completarem o quadro teórico
básico da nova corrente em psicologia.
Em resumo, o que define a orientação transpessoal é um modelo que
reconhece a importância das dimensões espirituais da psique humana
e o potencial para a evolução da consciência. Segundo Maslow, assim
como existe no indivíduo uma pulsão inconsciente para a experiência
sexual, também parece haver uma pulsão para a espiritualidade, através
do desenvolvimento dos níveis de percepção. Quando esse impulso
é relegado e o afloramento dos níveis transcendentes da personalidade
impedido, o resultado é o desequilíbrio psíquico e físico, terminando
com o surgimento de vários tipos de doenças.
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