| Matéria
para a Revista Alquimista
Por:
Isabela Dantas
A primeira vez que ouvi falar em Roger Woolger foi em meados de
96, quando ainda estava morando na Inglaterra, depois conheci seu
livro "As Várias Vidas da Alma", considerado um trabalho
definitivo na área de vidas passadas, e mais tarde em 98, já de
volta ao Brasil, ingressei para sua formação em Terapia de Regressão
Integral. Aproveitei sua vinda a Salvador-BA, dando continuidade
à formação, para que Roger falasse um pouco do seu trabalho para
a revista Alquimista, já que este assunto tem despertado
tantos interesses nos últimos anos.
Alquimista:
Como caracterizaria seu trabalho no campo das Terapias de
Vidas Passadas?
Roger
Woolger:
Decidi chamar
meu trabalho de Deep Memory Process há alguns anos atrás,
para que fosse diferenciada das diversas outras formas de Terapia
de Vidas Passadas. A maior parte das Terapias de Vidas Passadas
se caracteriza pela dissociação da pessoa do corpo, produzindo puramente
uma história mental e/ou visual. Isto pode ajudar bastante em alguns
casos, mas um trabalho mais profundo, na minha experiência, representa
trabalhar as emoções, identificando-as com algumas partes do corpo;
talvez carreguemos uma profunda tristeza nos nossos ombros, ou podemos
ter uma forte carga de sentimentos de raiva e vingança guardados
na nossa cabeça, que pode manifestar dores de cabeça. Então, somente
levando a pessoa de forma profunda a uma consciência do seu corpo
e dos seus sentimentos é que podemos ter um alívio real e cura dos
sintomas. A hipnoterapia se concentra mais na superfície, pelo que
conheço por experiência própria. Então, quando chamo meu trabalho
de Deep Memory Process, o faço porque nesta técnica integramos
outras modalidades de terapia dentro do trabalho. Usamos Bioenergética
por exemplo, com o intento de aliviar dores no corpo. Usamos o Psicodrama,
dramatizando a história dos sintomas, fazendo com que a pessoa se
sinta fisicamente com vontade de sair correndo de outros que a atacam,
de ter nos braços a pessoa amada que morreu. Consequentemente, as
histórias não são apenas uma lembrança mental, mas também totalmente
uma criação humana de uma situação de vida passada. Revisamos a
história exatamente como aconteceu, com toda a carga dramática emocional,
física, mental e espiritual. As vezes chamo isto de ‘os dramas da
alma’. Para que um drama seja completamente vivido é necessário
que seja representado outra vez de forma teatral, então a metáfora
do Psicodrama e do drama é o centro do meu trabalho. Os atores têm
corpos que se movimentam no palco, eles não sentam e falam apenas.
Infelizmente, em muitas das Terapias de Vidas Passadas, a pessoa
senta no sofá e fala sobre a história, isto nos traz o entendimento
mas não nos traz o alívio profundo dos nossos sintomas. É por isso
que em meu trabalho integro essas outras modalidades. Uma outra
razão pela qual chamo esta técnica de DMP, é porque não trabalho
apenas com Vidas Passadas, trabalho também com o espaço entre duas
vidas, o espiritual ou intermediário. As pessoas têm profundas experiências
de morrer naquele corpo em suas vidas passadas e de ir para um outro
nível de realidade - aí integramos ensinamentos e insights do Espiritismo
tradicional, do Kardecismo, diferentes estilos europeus de Espiritismo
e principalmente insights do Budismo Tibetano, escritos no conhecido
Livro Tibetano dos Mortos, que é um manual de como estruturar a
alma, de como aliviar as confusões nas horas e dias após a morte.
A
Terapia de Vidas Passadas baseia-se em problemas que as pessoas
trazem para a terapia. Muitas das histórias são traumas, perdas,
violência física, às vezes estupro, abuso sexual, conflitos sobre
poder e liderança, histórias de culpa onde falhamos diante de outro.
Muitas das tragédias humanas afloram quando trabalhamos com o Deep
Memory Process. Essas tragédias estão profundamente impressas
na alma. Observamos que na experiência de morte essas coisas inacabadas
de uma vida inteira, questões físicas, mentais, emocionais, ou uma
combinação delas, são impressas no corpo sutil, ou corpo energético,
este deixa o corpo físico no momento da morte e parte para outro
reino, conhecido no Budismo Tibetano como Bardo, que em Tibetano
significa "no meio", no meio de duas vidas diferentes.
Existe uma profunda consciência que podemos buscar seguindo a alma
e os seus movimentos da parte física da vida passada até os estados
intermediários do Bardo. Talvez a alma lembre-se de ter perdido
a família em um campo de concentração, talvez queira encontrar os
membros desta família de uma pequena cidade polonesa, quando o espírito
deixa aquele corpo de uma vida passada, se deslocando para o Bardo,
lhe é pedido para olhar à sua volta, ele geralmente vê os outros
entes que também morreram naquele campo de concentração. Profundas
reconciliações e uniões podem ser feitas no Bardo; às vezes uma
pessoa que morreu muito jovem em uma vida passada, morreu em um
campo de batalha, muito raivoso, sem ter querido ir para a guerra,
está furioso com seus comandantes, muito triste porque jamais vai
poder completar aquela vida, como por exemplo casar e ter filhos
- esta alma morre inacabada, a raiva permanece no corpo sutil ou
energético, no Bardo (estados intermediários), então conversamos
com o espírito e perguntamos do que ele ainda está com raiva, e
ele fala que ainda está com raiva dos generais. O espírito então
tem a chance de expressar esta raiva, já que grande parte da raiva
está armazenada no corpo, associada às feridas do campo de batalha,
existe um alívio físico quando a raiva é expressa. Sugerimos um
Psicodrama espiritual, um Psicodrama entre espíritos, o espírito
do soldado morto e o espírito do general que o mandou para a morte;
depois podemos perguntar a este espírito, quem ele deixou para trás
na Terra. O espírito pode dizer: "Minha amada, estávamos indo
nos casar. Ela continua lá na fazenda". Aí pergunto: "Quando
você olha para a Terra, o que você vê?" "Ela está muito
infeliz, eu fiquei muito tempo preso na fazenda, após a minha morte,
tentando me comunicar com ela." Dessa perspectiva do Bardo
podemos ver como os espíritos às vezes não vão em direção à Luz,
ficam amarrados à Terra, tentando finalizar seus dramas inacabados,
como fantasmas. Nós ajudamos o espírito do jovem soldado a ver que
esta mulher vai continuar sua vida, que ela se casa com um outro
homem, esquece daquele soldado, vive uma vida diferente. Ela não
o esquece completamente, porque quando ela morre, seu espírito também
vai para o Bardo e eles se encontram. O jovem soldado encontra-se
com o espírito da mulher amada que ele nunca conheceu de verdade,
quando estava na Terra - talvez aconteçam reconciliações e reconhecimentos.
Cada história é diferente. Às vezes a pessoa morre na Terra com
um profundo senso de fracasso, não consegue chegar até sua pequena
cidade, por exemplo, para avisar às pessoas que o ataque estava
para acontecer, o jovem chega tarde demais e já estão todos mortos.
Em seguida ele morre, morre sentindo-se bastante deprimido com sentimentos
de fracasso. No mundo espiritual pedimos a ele que encontre as outras
pessoas da pequena cidade e que lhes diga o quanto sente por não
ter podido ajudá-los. Muito freqüentemente as pessoas daquela pequena
cidade, como também os mais velhos vão dizer que o perdoam, que
acabou, que ele não precisa carregar essa culpa. Então desenterramos
sentimentos de culpa e fracasso do espírito desse jovem, que fracassou
em avisar aos moradores daquela pequena cidade, e ele pode sentir
um enorme alívio, estando apto a perdoar-se e a perdoar os outros,
um completo senso de auto-estima na vida atual casa completamente
com a história.
Assim,
chegamos à conclusão de que podemos aliviar sintomas, não só por
reviver uma história de vida passada na Terra, mas também reconhecendo
quais são os resíduos de uma vida passada, aquilo que sobrou do
mundo espiritual. Então integramos algumas técnicas de Terapia de
Vidas Passadas, Psicodrama, Bioenergética, trabalhos corporais e
outras formas de cura e algumas práticas espirituais, do espiritismo
praticado no Brasil como também do Xamanismo. No Deep Memory
Process trabalhamos constantemente em dois domínios: o mundo
físico, onde estão os dramas humanos, e o mundo espiritual, onde
os resíduos da vida na Terra passam a ser travas que devem ser liberadas,
com a ajuda de uma consciência superior, dando novas perspectivas,
é o que chamamos de ‘os dramas de reconciliação’ que acontecem no
Mundo Espiritual.
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