| Curando
suas Vidas Passadas – Explorando as Várias Vidas da
Alma
Roger
Woolger, Ph. D.
Introdução
Capítulo
1 – A história por trás da história
Capítulo
2 – Como nos lembramos de vidas passadas
Capítulo
3 – Vidas passadas, problemas presentes
Capítulo
4 – As questões inacabadas da alma
Capítulo
5 – Entre vidas: Cura no Brado
Capítulo
6 – Como nossos corpos se recordam de vidas passadas
Capítulo
7 – Integrando nossas almas
Capítulo
8 – A história secreta da reencarnação
Recursos
Capítulo
1 – A História por Trás da História
“Aqueles
que não se recordam do passado estão condenados a
repeti-lo.”
George Santayana
QUANDO
A TERAPIA NÃO FUNCIONA
Vários dos problemas que levamos aos nossos terapeutas, rapidamente
nos remetem a acontecimentos na infância, tais como perdas,
abuso, tragédia e similares, mas há várias
questões que nem mesmo anos de terapia parecem alcançar.
Muitos clientes chegam com sentimentos de sofrimento profundo, ou
fobias inexplicáveis, como medo de naufragar, apesar de nunca
terem estado no mar, por exemplo. Tais sentimentos não fazem
sentido quando buscamos sua origem na experiência da vida
atual do cliente. Repetidas vezes eles dizem que sempre tiveram
determinada sensação, ou que sempre fantasiaram sobre
determinados países, ou tiveram pensamentos sobre determinado
tipo de morte desagradável, ou então fortes convicções
de terem sido um outro tipo de pessoa em outra era.
Tais pensamentos não devem ser ignorados. De fato, os vários
casos acumulados de lembranças de vidas passadas, tanto através
de terapia quanto de pesquisas, formam uma conjuntura quase irrefutável
para se descartar o dogma científico (pois é um dogma)
da tábula rasa – a idéia de que a mente é
um ‘vazio total’ no nascimento. Aos poucos, mais e mais
leitores e investigadores sem preconceitos percebem que quase todos
os nossos problemas provêm de questões com as quais
nascemos, de que a alma tem sua própria história.
Com essa perspectiva, a “terapia de vidas passadas”,
como vem sendo chamada há alguns anos, é uma psicologia
profunda, uma psicologia da alma e das mais profundas tribulações
que ela herda da história maior da humanidade. Como escreveu
o grande filósofo francês, Michel de Montaigne, em
seus Ensaios: “Cada homem leva a marca de toda a condição
humana”.
Assim, quando a terapia convencional, com sua ênfase em nossas
experiências dessa vida, não funciona, a razão
pode ser simples: o terapeuta está procurando o trauma, o
evento que ocasionou o distúrbio psicológico, no lugar
errado.
WENDY:
A ANSIEDADE DE UMA MÃE
“Eu não deveria tê-los deixado sozinhos!”
Uma de minhas clientes, uma mãe a quem chamarei de Wendy,
tinha terríveis ataques de ansiedade sempre que via os filhos
indo para a escola, ou até mesmo quando brincavam longe de
casa com outras crianças. Ela não agüentava que
eles ficassem afastados dela por muito tempo, nem mesmo para ir
a uma colônia de férias. Ela sabia que isso não
era justo, e esforçava-se para vencer seus medos. Mesmo com
seus filhos ficando mais velhos, os temores irracionais persistiam.
Ela sempre ficava ansiosa em relação a eles, e telefonava
constantemente, mesmo após se tornarem adultos e constituírem
suas próprias famílias. Ela me procurou após
uma amiga visitá-la com filhos pequenos, pois os ataques
de pânico haviam voltado com força total, só
que agora, foram os filhos de outra pessoa que dispararam os profundos
sentimentos de pavor em Wendy.
Wendy tentara vários tipos de terapia, ao longo dos anos,
mas sua ansiedade nunca fora realmente embora. Naturalmente, ela
havia explorado sua infância, porém a lembrança
mais angustiante fora a do dia em que sua mãe a colocou no
ônibus escolar, quando tinha cerca de seis anos de idade.
Não acontecera nada na época que pudesse explicar
o medo, simplesmente a menina ainda pequena ficara apavorada por
deixar sua casa e sua mãe.
Quando sondamos mais profundamente, em uma sessão de regressão,
descobrimos que, em uma vida passada, Wendy fora um menino, índio
nativo norte-americano. No reviver de sua história, o menino
saíra para caçar com seu pai, aos dez ou onze anos,
na época em que a tribo estava sendo expulsa de sua terra
por homens brancos. Ao voltar para casa, encontrou o acampamento
da família, à beira do rio, sendo atacado. Saindo
da floresta viu sua mãe, seu irmão caçula e
sua irmã sendo estuprados e mortos diante de seus olhos.
Ele e seu pai correram, com facas, arcos e flechas, na tentativa
de afastar os atacantes. O menino lançou-se corajosamente
contra eles, mas os homens brancos com suas poderosas armas de fogo
os mataram. O clímax da regressão aconteceu quando
o menino morreu, sentindo-se terrivelmente responsável pela
morte de sua família, embora ele e seu pai nada pudessem
ter feito. Seu pensamento na hora da morte foi:
– Eu nunca deveria tê-los deixado sozinhos.
Quando a história veio à tona na consciência
de Wendy, ficou claro que seus medos durante a infância e
sua ansiedade em relação à sua própria
família sempre estiveram, inconscientemente, associados ao
menino nativo norte-americano do passado. Até nossa sessão,
ela sempre tivera medo de que aquele horror pudesse se repetir de
alguma maneira. O fato de saber que aquela vida era como uma fita
antiga, que se repetia no pano de fundo de sua consciência,
foi suficiente para ajudar Wendy a apagá-la e a liberar grande
parte de seu medo. Às vezes são necessárias
várias sessões de terapia para quebrar hábitos
profundos de medo, mas agora, Wendy podia pelo menos dizer a si
mesma com sinceridade:
– Hoje minha família está segura. Isso é
apenas uma história antiga. Eu posso deixá-la.
PROCURANDO
A HISTÓRIA POR TRÁS DA HISTÓRIA
Sabemos que muitas pessoas carregam padrões de medo, culpa
e preocupações obsessivas como Wendy. Clinicamente,
esses padrões são rotulados de “fobias”
ou de “distúrbios de ansiedade”, contudo, a literatura
psiquiátrica raramente consegue determinar sua origem. O
mais intrigante, em relação a tais sentimentos, é
que são simplesmente irracionais; seu conteúdo não
faz sentido por si, e não há nada que faça
a ligação do medo com nossa experiência de vida.
Um homem que nunca foi esfaqueado, ou sofreu um corte profundo,
pode ter um medo terrível de facas; uma mulher que nunca
sofreu uma queimadura grave pode ter um medo profundo de fogo. Buscar
na infância as explicações para tais medos parece
não deslocá-los. Com freqüência, como no
caso de Wendy, o medo já está presente na infância,
totalmente formado.
Na perspectiva da terapia de vidas passadas, nada disso é
surpreendente: as coisas que tememos como fogo, afogamento, armas,
explosivos, animais selvagens, lugares fechados, multidões
e viagens aéreas não são traumas de infância,
mas sim medos herdados fisicamente, resíduos de vidas anteriores
ainda entranhados no sistema psíquico, que chamamos de inconsciente
ou de alma. Os horrores que mais tememos realmente aconteceram a
outra pessoa, mas essa “outra pessoa” ainda está
presente em nós hoje, como uma memória impressa de
uma vida que já acabou, mesmo que a personalidade da vida
passada não saiba disso.
Quando percebemos que um medo irracional pode vir de uma experiência
de outra vida, então podemos procurar o que chamo de “a
história por trás da história”, a fita
antiga, como a de Wendy, que fica tocando no fundo da consciência.
Um dos conceitos de Freud pode nos ajudar em relação
a isso: a noção da compulsão à repetição,
que ele definiu como um impulso incontrolável de se repetir
comportamentos antigos ou histórias que já não
nos lembramos conscientemente. Quando expandimos essa teoria para
além de uma só vida, vemos rapidamente que o comportamento
neurótico de uma pessoa, embora irracional no presente, pode
fazer pleno sentido no contexto de uma história de vida passada.
A mulher que tem medo de fogo pode ter sido queimada amarrada; o
homem que tem terror de multidões pode ter sido pisoteado
durante uma revolta; a criança com medo de ruídos
altos pode se lembrar de ter morrido em um campo de batalha; o adulto
com medo de voar pode ter sido um piloto de caça abatido
em uma vida passada. Cada uma dessas histórias foi gravada,
com suas muitas variações, nos anais da regressão
a vidas passadas. Elas nos mostram que cada queixa, não importa
quão irracional pareça, quando isolada como sintoma,
pode ser um indício de uma história soterrada, a forma
da alma revelar sua dor mais profunda ainda retida.
CHERYL:
MEDO DE PÚBLICO
Resíduos de uma vida romana.
Uma ansiedade muito comum é o medo de falar ou de aparecer
diante de muitas pessoas. Essa condição incapacitante
pode atuar até mesmo em grupos pequenos, como foi o caso
de minha aluna Cheryl, uma jovem psicoterapeuta que participou de
um dos nossos workshops de Processo de Memória Profunda.
Cheryl era uma terapeuta muito capaz, mas sempre sofrera de incapacitantes
ataques de pânico quando se tratava de falar em público.
Até o terceiro dia do workshop, ela fora bem-sucedida em
evitar tal ansiedade, propositalmente enfiando o nariz em seu caderno
e falando o mínimo possível. Contudo, naquela manhã,
o tópico era medo, e quando a conversa abordou o terror em
situações grupais, ela teve um ataque de ansiedade,
só por estarmos falando sobre o assunto. Cheryl percebeu
que precisava falar sobre o que estava acontecendo com ela e, finalmente,
sobrepujou seu medo o suficiente para falar, mesmo com o coração
disparado, com as palmas das mãos suando e com nós
no estômago. A transcrição que segue é
típica de como podemos procurar a “história
por trás da história”, nesse caso, a história
por trás de uma história da infância de Cheryl.
Cheryl: É muito difícil dizer isso
na frente do grupo, mas tive uma recordação tão
forte há alguns momentos. Me vi em uma festa de Natal, de
vestido branco, quando ainda era criança. A família
inteira estava na sala. Eu não consigo entrar. Estou morrendo
de medo. Estão todos me olhando de cima. Meu ombro está
doendo muito.
Roger: Feche seus olhos e volte aos quatro anos
de idade, em seu vestidinho branco, momentos antes de entrar na
sala.
Cheryl: (tremendo, em lágrimas) Não
posso. Não posso entrar. Estão todos me olhando. Eu
odeio este vestido branco. Por que eles querem que eu o use? Estou
aterrorizada. Algo horrível vai acontecer. (Ela soluça
profundamente).
Roger: (suavemente ajudando-a a focar na imagem)
Entre na sala. Caminhe até o outro lado da sala. Isso não
pode te fazer mal hoje.
Cheryl: Estou totalmente congelada. Estou na sala
e todos estão dizendo:
–
Que vestidinho bonito. Que linda.
Não consigo olhar para eles. Estou com muita vergonha e com
medo.
Roger: O que acontece?
Cheryl: Nada. De alguma forma me sinto melhor.
Não tem nada a ver com eles. Era aquela porta, o vestido...
Roger: Volte de novo. Ao momento mais assustador,
logo antes de você passar pela porta. Isso mesmo. Fique com
o medo. Respire dentro do medo. Deixe que a pior imagem de algo
terrível surja na contagem de três. Um, dois, três!
Cheryl: (quase gritando) Ai, socorro, é
uma multidão enorme. Estão gritando comigo lá
de cima. Sou uma mulher adulta, de vestido branco. É Roma.
Eles vão nos matar. Ai! Um leão! Meu braço!
Eu não estou mais lá. Estou acima de tudo, olhando
para baixo. (Ela segura seu próprio braço e dobra-se
em dor. Ela soluça, então a dor começa a diminuir
e ela se sente aliviada. Após vários minutos de choro,
ela finalmente consegue falar). Me vi como uma das primeiras cristãs.
Era uma arena romana. Agora entendo porque odeio vestidos brancos
e multidões barulhentas. Graças a Deus que isso acabou.
Na
camada mais profunda do medo de Cheryl, sua mente inconsciente associou
a exposição pública à morte humilhante.
Fazendo uma retrospectiva, podemos notar que foram vários
os “gatilhos” que a afetaram. Um deles foi estar perante
um grupo, o grupo do workshop, e anteriormente a sua família.
Esta foi a primeira camada da história. O segundo gatilho
foi o das pessoas estarem olhando para ela de cima, pois nas arenas
romanas, como sabemos, a multidão assistia de cima ao horrível
espetáculo. O terceiro gatilho foi o vestido branco.
O impressionante é que o terror de Cheryl, inicialmente,
parecia surgir, como a psicoterapia convencional esperaria, de uma
ocorrência da infância. Contudo, lembrar-se da infância
não revelou a causa do medo irracional, isso apenas forneceu
um exemplo anterior de como o medo foi acordado. Ficou claro que,
o medo que Cheryl sentia de grupos já estava com ela ao nascer
e ficou dormente até ser disparado por algumas situações,
como a da festa de Natal. Vários dos nossos medos agem dessa
forma. Mas sempre há uma história mais profunda que
revelará a razão para a reação debilitante
da alma. E quando revivemos a história, removemos sua carga
emocional, como se fosse uma farpa profunda, sempre sensível
quando a região ao seu redor é tocada.
Houve um outro elemento importante na experiência de regressão
de Cheryl: a enorme dor no ombro, que foi totalmente dissipada.
Tais dores, que ocorrem em muitas das regressões, serão
discutidas em maior detalhe no capítulo 6.
PETER:
O DESEJO DE MORTE DE UM ADOLESCENTE
“Eu não vou viver por muito tempo.”
Nem todas as regressões precisam desvelar uma camada do trauma
na infância, assim como nem todas as histórias estão
relacionadas ao medo. Alguns problemas podem ficar dormentes durante
a infância, sendo disparados apenas na adolescência,
ou ainda mais tarde na vida. Meu último exemplo de uma “história
por trás da história” é a de um adolescente
enraivecido e perturbado que chamarei de Peter.
Por volta dos dezessete anos, Peter começou a rebelar-se
contra seus pais, professores e quase todos à sua volta.
Poderíamos chamar isso de “rebeldia” da adolescência.
Ele se envolvia em brigas nos bares, bebia demais, e corria demais
quando conseguia um carro. Sofreu também alguns acidentes
de motocicleta. Para o observador, parecia que estava tentando se
matar. Ele provavelmente teria negado isso, pois não era
consciente. Mas quando sondamos a história por trás
da história, descobrimos que, inconscientemente, ele estava
revivendo uma história na qual ele realmente morreu. Peter
se viu em uma vida passada como um recruta militar, forçado
a servir no exército britânico. Seus superiores foram
brutais com ele, o estupraram e o usaram como bucha de canhão
em uma terrível batalha, em algum lugar na Europa.
Durante a regressão, Peter se viu como um jovem soldado,
sangrando até a morte devido a vários ferimentos,
abandonado para morrer no campo.
– Não é justo (grunhia ele).
– Por que isso aconteceu comigo? Eu quase não vivi.
Eu poderia ter me casado, ter tido filhos, ter aberto uma lojinha
em algum lugar. Eu odeio esses desgraçados! Suas guerras
estúpidas e sem sentido. Eles só nos usam. Eles estão
cagando para tudo, exceto para sua própria glória.
Hipócritas nojentos! Todo aquele papo de lutar ‘pelo
país’. É tudo uma grande mentira!
Ele não conseguia parar de sentir o ódio e a desilusão
em relação a tudo que a guerra, e principalmente,
seus líderes representavam. Esses pensamentos, de enorme
ressentimento, ficaram profundamente misturados a todo o terror
e à violência que ele carregava dentro de si e a todo
o caos à sua volta, na hora em que morreu. Em meio ao seu
desespero, o soldado moribundo levou consigo o pensamento devastador
de que “O mundo é perigoso e eu não vou viver
por muito tempo.”
Essa história não veio à tona antes da adolescência
de Peter, simplesmente porque estava relacionada à adolescência.
Na vida passada que ele estava carregava consigo, ele havia, de
fato, morrido por volta dos dezessete anos. Toda a “rebeldia”
que ele estava encenando no presente era uma conseqüência
direta dessa dolorosa e inacabada história de vida passada.
Esse tipo de história é recorrente em minhas anotações
de casos, em suas múltiplas variações. Mas
trazer à consciência, a “história por
trás da história”, foi um grande alívio
para Peter. Ele então pode ver o que o estava impulsionando,
e como ele vinha vivendo de forma irracional, porém explicável,
a raiva e o desespero por sua vida estar chegando ao fim. Ele rapidamente
parou com todos os comportamentos autodestrutivos e começou
a canalizar toda a força de sua energia adolescente para
os esportes e para ingressar na faculdade, nos quais obteve grande
sucesso.
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