| Deep
Memory Process
Liberação de Traumas e o Corpo
Por
Roger J. Woolger, Ph.D.
Tradução
de Jussara A. Serpa & Lila Rosana
(Este artigo foi publicado primeiramente em Body Psychotherapy,
Editado por Tree Staunton. Brunner-Routlege, Londres 2002)
“Pensadores, escutem, digam-me o que vocês conhecem
que não está dentro da alma?
Peguem um jarro cheio de água e afundem-no na água
Agora há água por dentro por fora.
Não devemos dar um nome a isso,
Senão pessoas tolas começarão a falar de novo
sobre o corpo alma.”
Kabir
“Dentro
do corpo denso, que sofre dissolução após a
morte, cada ser vivo possui um corpo sutil interno, que é
formado das faculdades sensoriais vitais, respiração
e órgãos internos. Este é o corpo que continua
e continua, de nascimento a nascimento, como base do veículo
da personalidade reencarnada. Ele sai do abrigo do corpo denso na
hora da morte e então determina a natureza da nova existência;
pois dentro dele ficam os traços dos movimentos das vontades
do passado, todas as propensões e tendências, a herança
de hábitos e inclinações, toda a prontidão
peculiar a reagir dessa ou daquela maneira, ou a de não reagir.”
Heinrich Zimmer
Introdução
A
Terapia de Regressão a vidas passadas, como aqui descrita,
é uma técnica terapêutica que usa estratégias
e comandos semelhantes aos da regressão hipnótica
de idade (seguindo a linha do tempo para trás, falando com
a persona regredida etc) mas também utiliza grandemente a
técnica de sonho acordado da imaginação ativa
de Jung, e o re-encenar no corpo eventos passados, denominado ‘psicodrama’
por J.L Moreno (Woolger, 1996). Como na regressão hipnótica
e no psicodrama, o cliente é guiado e encorajado a reviver
cenas traumáticas ou conflitos não resolvidos do passado
que, até, então estavam inacessíveis à
consciência, mas os quais aparentemente estão influenciando
ou distorcendo o equilíbrio mental e emocional atual do cliente.
Porém, em vez de se conduzir a regressão apenas à
infância do cliente, dá-se uma forte sugestão
para “ir até a origem do problema em uma vida anterior”.
Em outras palavras, a noção de linha de tempo é
estendida para o passado e supõe a continuidade da alma com
existências prévias por meio do que alguns chamam de
memória da alma ou de memória antiga. Em muitos aspectos
o raciocínio da terapia de vidas passadas é semelhante
ao das terapias de estresse pós-traumático, assim
como ao da abordagem catártica ou de ab-reação
que foi abandonada pelos psicanalistas (Hermann, 1992).
Regressão a Vidas Passadas e Psicoterapia
O
status ontológico das memórias de “vida-passada”
é inevitavelmente controverso devido à adesão
da psicologia ocidental e da psicanálise freudiana a uma
visão tabula rasa da psique infantil no nascimento, mas isso
vem a tempos sendo desafiado pela teoria de Jung de um inconsciente
coletivo que transcende o tempo histórico (Jung, 1935, Assagioli,
1965) e pela escola largamente conhecida que se denomina “psicologia
transpessoal” (Tart, 1975, Grof, 1985, Rowan, 1993, Boorstein,
1996). Além do mais, existe também a obra monumental
do Dr. Ian Stevenson da Universidade da Virginia, no passado presidente
da Sociedade Britânica de Pesquisa Psíquica. Por mais
de 40 anos, Stevenson e seus colegas de trabalho colearam casos
de memórias espontâneas de “vidas passadas”
de várias partes do mundo, em sua maioria de crianças.
Esses casos, que ele chamou de “sugestivas de reencarnação”,
e às quais verificou meticulosamente, foram publicadas em
cinco volumes. Suas descobertas nunca foram seriamente contestadas.
Seu livro mais recente, “Reencarnação e Biologia”
(Stevenson, 1997), foi descrito pelo revisor e crítico da
Rede Científica e Médica Britânica como “um
dos grandes clássicos da pesquisa psi do século XX”
(Lorimer, 1997:53). Não obstante, o trabalho de Stevenson
continua a ser ignorado pela corrente principal da psicologia. (Para
uma revisão detalhada das interpretações parapsicológicas,
religiosas e metafísicas de “vidas passadas”
veja Woolger, 1987).
Quanto ao valor terapêutico do lembrar-se de “vidas
passadas”, um número crescente de terapeutas de diferentes
países tem convicção de sua eficácia
(Lucas 1993). Muitos terapeutas contemporâneos se viram diante
de cenários de “vidas passadas” ao instruir clientes
durante sessões de regressão hipnótica a “voltar
no tempo até a origem do problema”, embora nem terapeuta
nem cliente acreditassem em “vidas passadas”. Foi este
o caso ocorrido com o iminente neuropsiquiatra Dr. Brian Weiss da
Universidade de Miami, que arriscou sua reputação
e carreira ao publicar o caso de uma cliente que se recuperou rapidamente
quando uma “vida passada” não solicitada emergiu
espontaneamente durante uma sessão de hipnose (Weiss, 1990).
Como ambos Weiss e o autor deste concluíram após revisar
centenas de casos semelhantes “não importa se você
acredita ou não em reencarnação, o inconsciente
quase sempre irá produzir uma história de vida passada
quando solicitado da maneira certa” (Woolger, 1987, pg. 40).
O notável sobre essa técnica, empregada pela primeira
vez na virada do século vinte, por um hipnoterapeuta e seguidor
de Freud chamado Colonel de Rochas, é que o cliente não
precisa acreditar em reencarnação ou em vidas passadas
para que ela seja eficaz. (Por analogia, poder-se-ia também
dizer que não é necessário que a pessoa acredite
em uma teoria dos sonhos para que o trabalho com sonhos seja eficaz
na terapia). A pessoa é simplesmente encorajada a reviver
uma cena perturbadora de alguma outra época histórica
como se fosse real e temporariamente assumir a personalidade da
“outra vida” assim como as imagens e sensações
corporais da “outra” personalidade pelo tempo de duração
da “regressão”. O efeito terapêutico de
reviver um trauma de “vida passada” na imaginação,
seja a história de um acidente, abandono, traição,
morte violenta, estupro ou abuso físico, é semelhante
às liberações emocionais experienciadas com
as terapias de estresse pós-traumático usadas para
os traumas da vida atual (Herman, 1992, Van der Kolk et al 1996).
O reviver é como um psicodrama fictício que leva,
como Moreno desejava, a uma liberação catártica
intensa de sentimentos bloqueados, em geral de medo, pesar, ira,
vergonha ou culpa congelados.
O Corpo na Terapia de Vidas Passadas
Assim
como as liberações corporais pesquisadas por Wilhelm
Reich, a terapia de vidas passadas, muito freqüentemente, ocasiona
a dissolução espontânea de couraças físicas
e a recuperação da libido física bloqueada.
De fato, um aspecto marcante da terapia de vidas passadas, quando
vista pela primeira vez por um observador, é o óbvio
envolvimento físico do cliente na história que está
sendo revivida. Em várias sessões, o cliente não
se limita a ficar apenas sentado ou deitado passivamente recontando
uma visão interna de uma vida passada com os olhos fechados.
Pelo contrário, ele ou ela pode estar sujeito às mais
dramáticas convulsões, contorções, saltos,
movimentos voluntários e involuntários. Um cliente
pode apertar o peito aparentando sentir dor enquanto fala de uma
ferida de espada, outro pode ficar quase roxo por asfixia ao relembrar
de um estrangulamento, enquanto ainda outro pode ficar rigidamente
congelado com os braços acima da cabeça ao relembrar
estar amarrado a uma árvore durante um tortura.
Vários terapeutas corporais têm relatado o surgimento
de imagens de “vidas passadas” durante uma sessão
de massagem ou de Rolfing quando partes tensas, sensíveis
ou contraídas do corpo são tocadas ou trabalhadas.
Além disso, às vezes é o massagista que tem
a visão da imagem, como se estivesse “sintonizando”
algo nos campos de energia em torno do corpo do paciente. Um exemplo:
um paciente masculino, durante uma sessão em que seus pulsos
estavam sendo profundamente massageados, viu-se em um outro corpo,
o de um escravo que fazia muita força cona um enorme remo
em um galeão romano; na mesma sessão, o terapeuta
também percebeu imagens do corpo remando enquanto estava
trabalhando nas pernas do cliente. Em um outro caso, quando foi
solicitado a uma paciente que explorasse a dor em sua nuca e ombros
movimentando os braços e a cabeça em diversas direções,
suas mãos subitamente congelaram na altura das orelhas, sua
cabeça caiu para frente e ela gritou horrorizada: - Estou
num pelourinho! Estão atirando coisas em mim! – Ela
havia, momentaneamente, experienciado a persona de uma adúltera
do século XVII que estava sendo castigada por uma comunidade
enfurecida de Puritanos da Nova Inglaterra.
Ocasionalmente um tratamento médico ou dentário invasivo
ativará respostas de medo extremo e o que parecem ser retrospectos
de tortura ou de abuso de "uma vida passada". Durante
uma cirurgia oral, uma mulher reagiu com terror quando um pano de
cobertura cirúrgica foi posto sobre seu rosto para iniciar
o procedimento. Em uma regressão subseqüente ela sentiu
que colocavam um capuz sobre sua cabeça e em seguida foi
guilhotinada durante a Revolução francesa; após
ter revivido a morte e aparentemente ter saído do corpo para
ver seu ego da "vida passada, lá embaixo" todo
o seu medo sumiu.
Em outro caso muito notável, uma cliente buscou terapia porque
sua resposta sexual sempre fora tão bloqueada que ela resistia
a qualquer penetração. Durante uma sessão ela
foi regredida a uma cena de infância desta vida em que lhe
introduziram uma sonda na uretra em um hospital. Este procedimento
em si foi extremamente traumático, mas durante o re-viver
emergiu uma imagem mais horrível e dolorosa ainda quando
ela disse: - Está queimando! - Ela se viu como uma mulher
que engravidou fora do casamento, em uma aldeia medieval; ela foi
castigada cruelmente pela inserção de um ferro em
brasa para cauterizar seu útero. Quando estas e outras visões
e sensações semelhantes de trauma físico emergem
na regressão, no psicodrama ou em trabalhos corporais, eles
podem ser resolvidos pela terapia de vidas passadas e liberados
energicamente do corpo com notável remissão da dor
e de outros sintomas físicos crônicos.
Ao observador inexperiente, isso pode parecer aflitivo, se não
perigoso. Até mesmo terapeutas treinados (mais freqüentemente
aqueles que usam técnicas freudianas, cognitivas, ou puramente
verbais) me procuram após uma demonstração
particularmente violenta da técnica de vidas passadas e me
advertem dos perigos de provocar um colapso psicótico. Porém,
para muitos terapeutas que praticam a terapia de vidas passadas,
as fortes liberações físicas assim como emocionais,
são lugar comum em nosso trabalho, em muitos casos são
parte essencial dele. Cada vez mais terapeutas estão descobrindo
que vários tipos de problemas de comportamento e complexos
têm camadas subjacentes de traumas de vidas passadas, que
são claramente físicas como também emocionais.
Como resultado, nos vemos naturalmente usando métodos catárticos
para libertar o trauma antigo. Visto de uma perspectiva histórica,
esse tipo de ênfase no reviver eventos traumáticos
e tratá-los com métodos de ab-reação
ou catarse, marca um retorno às mesmas abordagens que Freud
abandonou, há noventa anos atrás, a favor de sua psicologia
posterior, a do ego e de seus mecanismos de defesa.
Como Stanislav Grof observou em sua visão geral da história
da psicoterapia em ‘Além do Cérebro’ (1985),
muitas das terapias mais recentes, Gestalt, Renascimento, Terapia
com LSD, por exemplo, atualmente enfatizam o componente experiencial
em reação à ênfase puramente cognitiva
e interpretativa de grande parte da psicoterapia neofreudiana. Em
outras palavras, do ponto de vista de Grof, com o qual estou totalmente
de acordo, grande parte das terapias pós-freudianas, e até
mesmo junguiana, sofreram um desvio intelectual ineficaz na evolução
de métodos práticos da psicoterapia.
Eu levanto a questão dessas estratégias terapêuticas
fundamentalmente diferentes (podemos chamá-las de catártica
versus cognitiva) não por razões polêmicas,
mas porque elas afetam radicalmente como procedemos em relação
à terapia em geral e à terapia de vidas passadas em
particular. Uma conseqüência óbvia dessas visões
discrepantes é que quando objetivamos a compreensão
cognitiva tendemos a negligenciar o corpo. Em contraste, quando
como terapeutas enfatizamos a catarse, temos inevitavelmente que
permanecer focados no corpo, pelo simples motivo de que é
no corpo que a violência física e emocional são
mais vividamente experienciadas. Recentemente, isso foi apontado
pelo inovador trabalho com terapia de trauma pelo grupo de pesquisadores
psiquiátricos de Harvard, encabeçado por Bessel van
der Kolk e Judith Herman. Eles enfatizam que é o sistema
límbico do cérebro e as vias sensório-motoras
que são responsáveis pelo armazenamento das recordações
traumáticas e não as regiões verbais do córtex,
como ocorre na memória normal. Uma publicação
fundamental de van der Kolk tem o título de "O Corpo
Mantém a Contagem" (van der Kolk, 1996). As implicações
para terapia de trauma dizem claramente que a lembrança e
a liberação efetivas de resíduos traumáticos
tem que envolver o corpo.
O
Corpo como Sujeito da Experiência
Do
ponto de vista da terapia catártica ou experiencial o corpo
em si se torna o que chamarei de um sujeito experienciador, por
fala de termo mais apropriado, ou mais estritamente, de uma multiplicidade
de sujeitos experienciadores. Minha cabeça pode pensar isso,
meu coração pode sentir aquilo, minhas entranhas podem
sentir outra coisa, e daí por diante. Cada parte do corpo
tem algo a dizer ou expressar. Foi isto que Fritz Pearls, inspirado
por Wilhelm Reich e pelo psicodrama de J. L. Moreno, viu de forma
tão clara: que há toda sorte de conversas, monólogos
e diálogos inacabados em atividade nas diversas e, muitas
vezes, opostas partes ou segmentos de nossos corpos. Os complexos,
mudando para a terminologia junguiana, falam em e através
de nossos corpos, se estivermos preparados para escutá-los;
nós somos a corporificação da totalidade de
nossos complexos.
Devemos em particular a Wilhelm Reich por ter lutado de forma prática
com o problema mais disseminado entre os homens e mulheres ocidentais,
ocidentalizados e “civilizados”, isso é a cisão
Cartesiana entre cabaça e corpo, mente e matéria,
espírito e natureza. Exatamente na época em que Freud
se afastava das implicações fisiológicas de
sua teoria da repressão sexual e do represamento da libido,
Reich estava explorando a questão das estruturas rígidas
de caráter e de como elas eram expressas pelo corpo. Reich
cunhou o termo couraça de caráter para descrever aqueles
padrões rígidos de tensões musculares inconscientes
encontrados na cabeça, mandíbula, nuca, ombros, tórax,
diafragma, pelve, pernas, braços, mãos e pés
(Reich, 1949, Dychtwald, 1977). Ele nos mostrou que essas estruturas
rígidas não resultavam de estresse físico ou
traumático, mas que eram expressões de traumas psíquicos,
emoções profundamente reprimidas, e uma inconsciente
negação básica da vida. Toda a libido que deveria
estar fluindo para fora do organismo e para a vida, não importa
o quão conflituoso isso possa ser, permanece presa sob a
musculatura. Isso por sua vez deprime a função autonômica,
afeta o funcionamento orgânico negativamente, e geralmente
distorce toda a postura do esqueleto (Reich, 1949, Alexander, 1971).
Para citar alguns exemplos: se uma criança vive com medo
de ser espancado por um pai/mãe brutal, ele aprende a se
contrair e a elevar os ombros para proteger a cabeça. Se
não houver libertação desse medo, a couraça
dos ombros defensivos nunca relaxa, correspondentemente, tampouco
relaxam seu estômago “nervoso” ou sua respiração
superficial apreensiva. Após a criança adaptar-se
a estar permanentemente “em alerta”, o medo fica preso
em seu organismo, na forma de ombros cronicamente elevados, coluna
curva e, peito e estômago contraídos. Com o passar
dos anos, esse tipo de padrão defensivo pode degenerar ainda
mais, se tornando num tipo característico de postura fixa
(Kurtz 1976).
Ou suponhamos que uma menina tenha sido sujeitada a abuso sexual
regular pelo pai. Nesse caso, são os genitais dela que estarão
contraídos, sua pelve presa numa postura congelada, e suas
pernas mantidas rígidas por um misto de medo e raiva. Além
disso, pode haver repulsa presa em seu estômago e respiração
superficial. Mais tarde ele pode sofrer de infecções
no trato urogenital, resposta sexual profundamente inibida e dificuldades
ginecológicas, todos resultantes da couraça psíquica,
profundamente enraizada, que se tornou crônica.
Estes exemplos são típicos da forma em que Reich (1949)
e seus seguidores contemporâneos (principalmente Keleman 1975,
Kurtz 1976, Lowen 1977, Boadella 1985, Pierrakos 1987) seguiram
a rota psicanalítica tradicional de procurar pela origem
causal das queixas orgânicas posteriores e couraça
de caráter nas deformações físicas e
traumas da infância. No mundo moderno não há
falta de negligência, brutalidade ou abuso sexual perpetrados
pelos pais. Assim, na maior parte das vezes, não é
necessário que os terapeutas continuem buscando a causa e
a liberação dos sintomas incorporados que descrevemos.
Mas como números crescentes de terapeutas estão descobrindo,
há todo tipo de queixas neuróticas, de natureza tanto
física como emocional, que simplesmente se recusam a uma
resolução através da exploração
das histórias de infância, não importando até
o quão cedo na vida investiguemos. Agora está sendo
admitido que muitas crianças já nascem obviamente
medrosas, deprimidas, enraivecidas, retraídas, incapazes
de comer (i.e. morrendo de fome), dessensibilizadas, etc. É
justamente em tais casos que a exploração de vidas
passadas está provando ser particularmente eficaz, agora
que estamos livres para fazer as perguntas que o freudianismo e
a doutrina da tabula rasa do desenvolvimento proscreveram por tanto
tempo.
Resíduos Físicos de Vidas Passadas
Permitam-me
a referência a um caso mencionado em meu livro, ‘As
Várias Vidas da Alma’ (Woolger 1987). Uma mulher jovem
a quem chamarei de Heather, sofria desde a adolescência de
colite ulcerativa. Obviamente que todos os tipos de terapias dietéticas
haviam sido tentados, e mais recentemente a psicoterapia. Seu psicoterapeuta,
que a referiu a mim, admitiu que era incapaz de encontrar qualquer
causa de ansiedade que explicasse as úlceras na vida atual
de Heather, apesar dos vários meses de tentativa. Assim,
concordamos em tentar uma sessão de vidas-passadas.
A história que emergiu imediatamente nos levou à Holanda
durante a 2ª Guerra Mundial, na época da invasão
nazista. Heather viu-se como uma menina de oito anos de idade, em
uma família judia, morando no bairro judeu de uma pequena
cidade holandesa. Na primeira cena que emergiu ela estava alegremente
ajudando a mãe a fazer pão quando o som de explosões
lhes chegou aos ouvidos. Os Nazistas estavam constantemente explodindo
e incendiando as casas para forçar os habitantes a saírem
às ruas. A mãe, em pânico, empurra as crianças
para a rua, mandando que corressem. A rua está cheia de pessoas
da cidade correndo em todas as direções. Há
carros e jipes de guerra seguindo-os e o som de artilharia. A menininha
corre para uma ruela, pensando que seria mais seguro, e por um tempo
observa, por trás de um muro, vendo alguns vizinhos e amigos
sendo mortos, mas em sua maioria eram agrupados pelos nazistas.
Fugindo para mais longe da fumaça e das explosões,
ela vira uma esquina e dá de frente com um carro comandado
por soldados. Eles a pegam e jogam na parte de trás do carro
onde já há outros cativos.
Em pouco tempo, ela e os outros são tirados do carro e postos
em fila à frente de trincheiras que foram cavadas para servir
de sepulturas em massa. De pé, assistindo filas de pessoas
serem metralhadas enquanto aguarda sua vez, ela dia que seu estômago
faz nós de terror. Chega sua vez e ela cai para trás,
com o impacto das balas, sobre uma pilha de vítimas mortas
e outras morrendo. Ela não morre imediatamente; outros corpos
caem por cima dela e ela finalmente morre por sufocamento e perda
de sangue. Seu estômago fica cheio de nós de terror
durante o acontecimento apavorante.
Minha abordagem durante a sessão foi a de direcioná-la
a respirar profundamente e a liberar o máximo possível
de medo e angústia. Recebendo essa permissão, ela
entrou em convulsão de choro, gritos e lamentações.
Como a jovem judia, ela morrera, pelo que parecia, impossibilitada
de expressar o terrível choque de perder seus pais, de assistir
à chacina em massa, e de encarar sua própria morte
prematura. Frases como “Nunca mais vou vê-los”,
“Me ajude”, “Não consigo sair daqui”,
“É tarde demais”, vieram à tona espontaneamente,
e seu corpo fez convulsões violentas e tentativas de vomitar.
Quando tudo terminou, Heather estava exausta e sem energia, porém
já não sentia o peso do medo que sempre estivera com
ela e o qual agora compreendia. A condição do seu
estômago melhorou radicalmente após esta e algumas
sessões de manutenção que se seguiram.
Em mitos dos casos, quando desviamos o foco de supostos traumas
de infância na vida atual e damos permissão ao inconsciente
profundo para se expressar, descobrimos que o sintoma apresentado
parece ser derivado de uma memória de vida passada. Não
houvera qualquer acontecimento na experiência de vida atual
de Heather remotamente grave o suficiente para induzir sintomas
de medo tão pesados que somatizassem úlceras; na realidade,
sua queixa era muito desproporcional ao curso relativamente tranqüilo
de sua vida atual. Contudo, a vida passada da menina judia veio
à tona imediatamente e encontramos imagens traumáticas
que estavam em concordância com seus sintomas. No caso de
Heather, assim como em vários outros, fui levado a concluir
que o medo inconsciente, que se manifestava em seu estômago
na forma de úlceras, não era um resíduo dessa
vida, mas de outra.
Parece que cada parte do corpo, de algumas pessoas, revela acidentes
ou feridas antigas. Mas os traumas de vidas passadas sempre têm
uma relação específica e não geral com
o problema físico atual. Nem todas as enxaquecas têm
origem em golpes na cabeça, nem todos os problemas de garganta
derivam de estrangulamentos. Uma dor de garganta semelhante em várias
pessoas pode encerrar em si histórias bem distintas: em uma
pessoa pode vir de uma morte por decapitação, em outra
uma morte por asfixia, enquanto ainda outra pessoa pode se lembrar
de ter sido enforcada. Em diferentes pessoas uma dor no peito ou
dores na região do coração trará traços
de memórias de vários tipos de apunhaladas, tiros,
lanças, flechas, estilhaço, etc. Braços e pernas
doloridas lembram-se de terem sido quebradas em acidentes de guerra,
esmagadas por árvores que caíram, despedaçadas
por tortura, crucificação ou pau de arara, ou então
de ter sido rasgadas por animais selvagens. Uma região abdominal
fraca ou sensível pode se lembrar de cortes, talhos e estripação,
ou então de fome ou envenenamento. Pés e mãos
sensíveis foram submetidos, em vidas passadas, a toda sorte
de acidentes e mutilações, para não falar de
haver infligido atos horríveis a outras pessoas.
Como isso pode ser verdade? Pode perguntar o cético que não
conhece a regressão a vidas-passadas. Como podem traços
de memórias e reações somáticas serem
ocasionadas por experiências vivenciadas por um outro corpo
totalmente diferente?
Os Problemas de Transmissão Não-Física
Algumas
teorias têm tentado responder à pergunta, às
vezes chamada de “o problema da memória extra-cerebral”,
recorrendo à herança genética. Entretanto,
minha descoberta é a de que em centenas de casos envolvendo
vidas passadas, pode-se contar na mão aqueles em que um determinado
problema possa ter sido passado geneticamente. A grande maioria
das histórias que gravei não tem explicação
genética, ou seja, não seria possível a transmissão
genética. Na maioria, as discrepâncias e descontinuidades
culturais são muito extremas.
Em um outro texto (Woolger, 1987), propus que falamos de conteúdos
psíquicos herdados como sendo “complexos de vidas passadas”,
uma extensão da descrição de complexo feita
por Jung (Jung, 1934), já que agora está muito claro
que as impressões psíquicas, emocionais e físicas
ocorridas em uma vida são de alguma forma transmitidas a
vidas futuras.
Contudo, não importando como nomeemos, como exatamente são
transmitidos os complexos de vidas passadas? Existe algum veículo
ou substrato psíquico para essa transmissão de uma
vida a outra, de um corpo a outro? A teoria do próprio Jung,
do inconsciente coletivo, que é um repositório dos
resíduos de toda a história humana, pareceria uma
proposta atraente, porém, nessa formulação,
seus conteúdos, os arquétipos, não têm
memórias pessoais, apenas formas impessoais.
Acredito que aqui, mais uma vez, precisamos nos voltar ao oriente
na busca de idéias mais compatíveis com nossos dados,
a teorias enraizadas em culturas que sempre estiveram abertas à
idéia de transmigração, diferentemente do ocidente
com seus dogmas e perseguições religiosas. O ensinamento
iogue, de fato, oferece conceitos altamente sofisticados, tanto
sobre um substrato psíquico universal denominado akasha,
que grava impressões de todos os eventos mentais e físicos,
quanto sobre um veículo, o corpo sutil, que transmite resíduos
psíquicos individuais.
Está além do escopo deste artigo adentrar na doutrina
tradicional do akasha (traduzido como ‘espaço’
ou ‘éter’ cósmico ou psíquico),
uma doutrina que vai para bem além da imagem dos “registros
akáshicos” popularizados por Edgar Cayce e a Teosofia.
É suficiente dizer que se nós no ocidente realmente
o compreendêssemos, o conceito de akasha poderia alterar radicalmente
as idéias fixas sobre matéria, transformação
e cura que apenas recentemente estão sendo desafiadas no
ocidente. Mais útil, da perspectiva da prática da
terapia de vidas passadas, é o conceito de corpo sutil. Segue
abaixo um resumo do assunto, feito por uma autoridade em religião
Indiana, Heinrich Zimmer:
Dentro
do corpo denso, que sofre dissolução após
a morte, cada ser vivo possui um corpo sutil interno, que é
formado das faculdades sensoriais vitais, respiração
e órgãos internos. Este é o corpo que continua
e continua, de nascimento a nascimento, como base do veículo
da personalidade reencarnada. Ele sai do abrigo do corpo denso
na hora da morte e então determina a natureza da nova existência;
pois dentro dele ficam os traços dos movimentos das vontades
do passado, todas as propensões e tendências, a herança
de hábitos e inclinações, toda a prontidão
peculiar a reagir dessa ou daquela maneira, ou a de não
reagir. (Zimmer, 1951: 324)
O Corpo Sutil na Teoria e na Prática
A
investigação científica dos campos de energia
em volta do corpo humano tem, até agora, sido muito limitada
no ocidente. Como a parapsicologia ainda é desacreditada
pela psicologia acadêmica (a American Psychological Association
tem consistentemente rejeitado a formação de uma Escola
de Parapsicologia, por exemplo) ainda não temos base de apoio.
Contudo, Krippner e Rubin fizeram relatórios sobre a pesquisa
russa do fenômeno Kirlian, de descargas de energia em volta
de plantas, animais e humanos, em seu livro Galaxies of Life (1973).
Essas emanações de energia, difíceis de não
se descrever como auras, podem ser registradas por um processo semelhante
ao da fotografia.
Nessa coleção de ensaios, Moss e Johnson relatam sobre
a pouco conhecida porém revolucionária teoria do ‘bioplasma’,
caracterizada pelo pesquisador soviético V.M. Inyushin como
‘o quinto estado da matéria’. (3) Segue seu resumo
sobre essas descobertas:
V.M.
Inyushin ... optou pelo termo ‘corpo de bioplasma’
para descrever as emanações e estruturas internas
dos objetos fotografados, citando autoridades em bioenergética
e bioeletrônica como Szent-Gyorgy e Presman. Conversando
com Inyushin, Moss aprendeu que ele concebe o ‘corpo bioplasmático’
como semelhante, se não idêntico à ‘aura’
ou ‘corpo astral’ conforme é definido na literatura
iogue. (Krippner e Rubin, 1973).
Infelizmente,
o termo russo é obviamente uma metáfora física,
derivado de ‘plasma’, o que tende a torná-lo
em uma redução do campo psíquico ao físico.
Isso se encaixa bem à filosofia russa de materialismo dialético,
mas é um tanto ou quanto desajeitado para aqueles que pensam
diferentemente. Por outro lado, nós mesmos no ocidente estamos
presos em nossos dualismos corpo/mente e natureza/espírito,
gerados pela teologia cristã e a tradição filosófica
predominante após Descartes. G.R.S. Mead pesquisou alternativas
tais como ‘alma’ e ‘espírito’ em
seu valioso livro ‘A Doutrina do Corpo Sutil na Tradição
Ocidental (1919), mas ele não faz qualquer tentativa de abranger
a psicologia moderna.
Um
grande problema de termos como ‘bioplasma’ e outros
termos ainda mais gerais como ‘campo de energia’, no
que tange à psicologia, é que eles não definem
a interface crucial entre ‘energia’ e padrões
de pensamento e sentimentos específicos. É possível
que a teoria de Reich sobre o ‘orgone’ seja a única
tentativa ocidental de fazer isso. Enfatizando a idéia de
que energia emocional reprimida também é energia orgone
ou vital reprimida, ele pôde demonstrar como padrões
neuróticos fixados levam à degeneração
de sistemas orgânicos. Alguns seguidores de Reich que tentaram
estender sua perspectiva radical, como Inyushin, ficaram impressionados
por sua semelhança à ioga e fenômenos de corpo
sutil tais como ‘auras’ perceptíveis. O método
de John Pierrakos, ‘Core Energetics’ (1987), trabalha
com o campo áurico na psicoterapia, assim como o sistema
de cura denominado ‘radiônica’ de David Tansley
(1977). O trabalho mais recente de Bárbara Brennan (1988),
com cura do corpo sutil, também merece menção.
Estes três pesquisadores usam conceitos iogues sobre os chakras
e as camadas sutis de energia em volta do corpo. Brennan admite
‘ver’ vidas passadas na aura através da clarividência.
O uso feito por Tansley da versão de Alice Bailey sobre a
teoria iogue do corpo sutil (1953) me parece especialmente valorosa,
principalmente por definir de maneira muito clara três níveis
distintos da energia sutil e demonstrar como eles se interpenetram.
Bailey utilizou os termos iogues para esses corpos sutis, mas de
maneira não muito abordável. Em resumo e em ordem
descendente, contendo um ao outro como ovos russos, eles são:
1. O Corpo Mental: esse amplo campo de energia
é o mais sutil dos três e, é o repositório
de todos os fortes conteúdos mentais ou pensamentos fixos.
Esses pensamentos podem ser conscientes ou inconscientes e podem
influenciar radicalmente os padrões gerais da vida ou da
auto-imagem de um indivíduo (i.e. “Eu nuca vou conseguir”;
“Não confie nos outros”; etc.) Tais pensamentos
podem ser os resíduos de experiências negativas de
vidas passadas. Eles não necessariamente afetam os corpos
inferiores, mas se o fizerem, sua influência é extremamente
forte.
2. O Corpo Emocional (às vezes denominado o corpo
astral): esse campo de energia se adere bem próximo
ao corpo físico, num raio de aproximadamente um metro e,
é o repositório dos resíduos dos sentimentos
relativos a acontecimentos passados, incluindo, como o corpo mental,
aqueles de vidas passadas. Tais sentimentos podem ser tristeza,
raiva, desilusão, apatia, etc. Esse Nível de energia
pode ser fortemente afetado por pensamentos negativos provenientes
do corpo mental. A nível físico, ele é mais
denso que o corpo mental. Quando seus conteúdos de sentimentos
ficam muito carregados e não são liberados, ele afetará,
negativamente, o corpo inferior de energia etérica.
3. O Corpo Etérico: poderia ser denominado
“o campo de memória física” porque nele
residem todos os traços de memórias dolorosas sutis
de traumas físicos, sejam lesões, fraturas, tumores,
amputações, ferimentos ou doenças – traços
estes que Patanjali, nos Ioga Sutras, chama de klesas ou ‘sofrimentos’
carregados pelo corpo sutil. O fenômeno do ‘membro fantasma’
sentido por várias pessoas que sofreram amputação
é um exemplo conhecido de como uma memória residual
de trauma pode ficar depositada no corpo etérico.
O corpo etérico é exatamente equivalente ao ‘corpo
bioplasmático’ de Inyushin (não o corpo astral,
conforme foi erroneamente colocado por Moss e Johnson) e aos sistemas
de energia chi na Tradicional Medicina Chinesa e ao prana na Ioga.
Também é próximo à energia orgone de
Reich. O corpo ou campo de energia etérica é o mais
denso dos três corpos sutis e pode ser percebido fisicamente
por várias pessoas como calor que emana de várias
partes do corpo. Ele irradia aproximadamente 5 centímetros
para fora do corpo físico e é nesse campo que atuam
a acupuntura, o shiatsu, o toque terapêutico e a cura pelas
mãos.
Este campo pode ser afetado eletroliticamente pela água fria,
banhos minerais, luz do sol e determinados filtros coloridos. Nele
encontram-se vários dos resíduos de traumas físicos
tais como acidentes e cirurgias, assim como traumas de vidas passadas.
Sentimentos reprimidos do corpo emocional se alojam no nível
etérico ocasionando problemas orgânicos.
Os Traços de Memórias nos Três corpos
Sutis
O
importante princípio que pode ser compilado dessa condensada
descrição é o de que há uma ordem descendente
de influência, do mais elevado ao inferior,entre estes três
corpos sutis. No caso de Heather, que vimos anteriormente, pode-se
discernir o seguinte padrão:
1. O pensamento inconsciente: “Estou em perigo”
(nível mental) faz com que Heather sinta-se perpetuamente
ansiosa (nível emocional);
2. A ansiedade perpétua de Heather (nível
emocional) cria tensão constante em sua região
abdominal (nível etérico);
3. A tensão constante no abdômen de Heather
(nível etérico) afeta o sistema gastrintestinal
produzindo úlceras (nível físico).
Como a causa sutil desses sintomas é descendente, podemos
dizer que em geral é verdadeiro (embora encontremos algumas
variações) que a cura segue a direção
oposta, um movimento para cima, desde o etérico até
o mental. Assim, por exemplo, no caso de alguém com um trauma
de vida passada associado às pernas, podemos observar o seguinte
padrão:
a.
Massagem ou manipulação física libera a energia
etérica (experienciada como calor, formigamento, etc.)
nas pernas;
b. O fluxo de energia etérica traz à
tona sentimentos incoerentes de medo;
c. Os sentimentos de medo levam a imagens de
ter sido perseguida quando criança, e então de ter
sido caçada em uma história de vida passada, e finalmente
o pensamento “Eu tenho que fugir”.
Pode ajudar a conceber como os três níveis de energia
de corpos sutis se inter-relacionam se usarmos a analogia dos
diferentes estados da água ou H2O. Quando está congelada,
a água é densa, sólida e de difícil
manipulação a não ser que a quebremos ou
cortemos. Quando a água está fluida, pode ser facilmente
movimentada, mas ainda é substancial e ainda pode penetrar
e erodir. Quando a água está evaporada, como uma
nuvem ou vapor, está em seu estado mais leve, mais sutil
e mais penetrante.
Por
analogia com a água, então, os conteúdos psíquicos
do corpo sutil que são mais difíceis de se trabalhar
são aqueles que se encontram “congelados” no
corpo físico, na forma de padrões de postura, fraqueza
de órgãos e doenças. Essas condições
podem ser mais facilmente influenciadas quando estão mais
“fluidas”, ou seja, quando são experienciadas
como sentimentos e emoções que podem ser ‘desrepresadas’.
De forma mais sutil ainda, pode ser possível perceber pensamentos
penetrantes por baixo desses sentimentos que, uma vez identificados,
podem então evaporar completamente. Assim, o trabalho corporal
pode ser imaginado como uma maneira de “derreter” resíduos
de conflitos psíquicos da vida atual, ou de uma vida passada,
que se tornaram rígidos ou fixados no todo do ser psicossomático
do indivíduo.
Morris Netherton (1978) foi o primeiro psicoterapeuta a documentar
uma série de casos em que traumas de vidas passadas estavam
por trás de várias doenças crônicas tais
como úlceras, enxaquecas, epilepsia e outras. Antes disso,
Alice Bailey, em Cura Esotérica (1953), havia esboçado
os princípios que governam a herança kármica
de doenças graves tais como câncer e cardiopatias,
mas ela não ofereceu qualquer sugestão para terapia.
Enquanto isso, Stanislav Grof vem enfatizando, a partir de suas
descobertas durante terapias experienciais e com LSD (Grof, 1985),
que todos nós carregamos fortes impressões inconscientes
em locais onde sofremos um acidente ou trauma físico na vida
atual.
Pareceria então que todas as cirurgias, doenças, membros
fraturados, privações ou pequenos machucados deixam
algum grau de resíduo no corpo etérico. Fisicamente,
estes podem ser percebidos como pontos ‘frios’, ou de
energia bloqueada nos meridianos (canais de energia da medicina
chinesa), ou então como chakras (termo iogue para os centros
de energia sutil) em mau funcionamento. Mas ao mesmo tempo, como
esses campos de energia são multidimensionais ou holonômicos
(5), freqüentemente também haverá a presença
de impressões de traumas de vidas passadas, em geral diretamente
coextensivos com a mesma região do corpo. Utilizando um trabalho
de respiração profunda para ajudar uma cliente a liberar
o trauma enterrado na região de seu útero proveniente
de uma histerectomia recente, repentinamente nos encontramos em
um sacrifício primitivo de vida passada em que sua barriga
estava sendo cortada. Semelhante história foi a de um jovem
que sofrera várias cirurgias complicadas no joelho após
um acidente de esqui. Encontramos nada menos do que três traumas
de vidas passadas envolvendo um joelho quebrado de alguma forma.
Em duas ocasiões ele perdera a perna abaixo daquele mesmo
joelho em batalha. Mais uma vez, o princípio permanece de
que as impressões no corpo sutil no nível etérico
ou bioplasmático têm camadas ou determinações
múltiplas.
Parece claro que determinadas regiões do corpo são
inerentemente fracas e propensas a acidentes, doenças ou
disfunção devido a essas antigas impressões
no corpo etérico. Uma prática útil, na entrevista
inicial da psicoterapia, perguntar sobre doenças recorrentes,
partes do corpo lesadas, medos ou fraquezas típicas, internações
hospitalares etc. Em geral, dores de cabeça, dores nas costas,
bexiga fraca, hipoglicemia, indigestão, problemas de vista
etc. são importantes sinais de cicatrizes etéricas,
ou bioplasmáticas, e conseqüentemente dos resíduos
de traumas de vidas passadas naquela região do corpo (Dethlefsen,
1990).
Quando um complexo de vida passada, alojado no corpo etérico,
ou bioplasmático, é primariamente um resíduo
de trauma físico, em geral é suficiente reexperienciar
o trauma. Em outros casos, algum tipo de reequilíbrio etérico,
massagem terapêutica, toque terapêutico, acupuntura
ou reflexologia podem ser complementos muito eficazes ao tratamento.
Em um caso descrito em meu livro ‘As Várias Vidas da
Alma’ (Woolger, 1986), uma mulher que sofria de lúpus
e dor semelhante à artrite em suas articulações
vivenciou uma dramática liberação catártica
da dor ao reviver ter sido desmembrada durante uma explosão
de bomba no que parecia ser uma vida passada. Na re-encenação
da vida passada, o choque do bombardeio havia claramente feito com
que a vítima saísse de seu corpo. Quando a personalidade
secundária, a da vida passada, um anarquista russo, pôde
ver seu corpo mutilado no chão, ele também pode, embora
agonizante, recapitular a dor fantasma. Mas como resultado desse
intenso psicodrama, a mulher vivenciou uma enorme liberação
do trauma de morte congelado e do pensamento negativo na hora da
morte “Nunca mais vou usar meus braços e pernas!”
Essa re-encenação dramática, da dissociação
pós-traumática do corpo mutilado e moribundo da ‘vida
passada’, com efeito curou o corpo sutil, re-associando a
consciência ao corpo – embora de forma dolorosa. Em
nosso trabalho com trauma grave, tanto de vida atual como de vida
passada, descobrimos que os sintomas de choques pós-traumáticos
invariavelmente levam à saída do corpo de alguma forma.
Isso inevitavelmente significa que os componentes físicos
e emocionais do trauma permanecem congelados e inconscientes no
campo energético do corpo sutil. E para todos os efeitos,
todos os resíduos permanecem fixados na imaginação
no momento do acidente ou catástrofe. Como num pesadelo em
que o sonhador acorda pouco antes do golpe mortal, a consciência
do ego escapa o momento crucial mas o medo não-resolvido
fica se repetindo como ma agulha presa em uma ranhura de um disco
fonógrafo antigo. (Nos Ioga Sutras de Patanjali está
escrito que as impressões cármicas no corpo sutil
são como ‘buracos’ ou ‘ranhuras’.
[Woods, 1927]). Encenar um trauma completo de vida atual ou trauma
de morte de vida passada, de tal forma que a re-encenação
estimule a liberação total do horror, tremores, pânico,
gritos e lágrimas, pode limpar completamente sintomas pós-traumáticos
bastante graves em poucas sessões. Nesse aspecto, a terapia
‘de vidas passadas’ é bastante semelhante às
terapias de ‘neurose de guerra’ desenvolvidas após
as guerras do século 20.
Nem todas as impressões etéricas ou bioplasmáticas
fixadas no corpo desaparecem tão rápido quanto no
exemplo da mulher que carregava resíduos de um trauma de
desmembramento. Alguns traumas podem representar o acúmulo
de várias catástrofes de vidas passadas, que encerram
um significado cármico maior e que podem requisitar muito
tempo de terapia e também de meditação para
serem liberados. Em seu leito de morte, devido à tuberculose,
D. H. Lawrence reconheceu em sua doença a necessidade de
“um profundo arrependimento, a conscientização
do erro da vida”. Da perspectiva maior do carma, ou seja,
dos nossos padrões de destino herdados espiritualmente, às
vezes pode parecer que a alma escolheu que fossemos aleijados, deformados
ou sujeitos a uma doença irreversível devido ao que
nós infligimos a outros no passado. Aqui, nossas impressões
etéricas são formas de penitência cármica
e têm um significado simbólico ou espiritual. Em casos
como o que vem a seguir, precisamos ter clareza de que não
é o ego da personalidade que ‘escolhe’ mas sim
um ‘eu superior’ ou transcendente – “não
a minha, mas que a Vossa vontade seja feita” (Jung propôs
o termo ‘Self’ para essa função, considerando-o
como o centro da alma. [Jung, 1969; também Bailey, 1953]).
Outra paciente que sofria de artrite em seus braços e pernas,
viu uma vida passada na qual ela fora um comandante romano que cruelmente
crucifixara vilarejos inteiros de gauleses rebeldes, mas que morrera
com remorso e aparentemente integrando ao seu próprio corpo
sutil as impressões das dores de suas vítimas. Terapia
corporal e psicodrama não foram eficazes antes de um profundo
remorso ter sido expressado. No final, um apelo com preces por perdão
pareceu invocar forças espirituais para mobiliar a cura da
paciente. Entretanto, vários clientes, apesar dos vários
tipos de catarse física e emocional, não conseguem
se liberar de suas dores. Especulo que seja como se, lá no
fundo, eles sintam que merecem sofrer; que sua dor é um tipo
de punição cármica vagamente compreendida.
Aqui estamos no limiar de questões filosóficas sobre
o significado do sofrimento e do mal, para os quais não há
respostas simples.
Mas quando estamos prontos para nos libertar de dores antigas, e
do que podem ser punições antigas auto-infligidas,
o corpo etérico ou bioplasmático pode começar
a se limpar num curto ou longo período de tempo, dependendo
de vários fatores individuais. Freqüentemente, quando
uma história crucial é liberada do corpo etérico
o bioplasmático, ocorrem extraordinárias descargas
de energia sutil, na forma de tremores, vômito, formigamento,
surtos de calor e frio, vibração e, até mesmo
a liberação de odores corporais estranhos. Tais movimentos
de energia, denominados kriyas na ioga e ‘descarga’
no trabalho Reichiano, são pouco compreendidos pela ciência
ocidental mas são todos pare do reequilíbrio do sistema
de energia sutil no nível etérico.
Bem mais complexos, e portanto mais difíceis de se trabalhar,
são os casos em que os resíduos de vidas passadas
no corpo emocional penetram e deformam o sistema etérico
ou o bioplasma, e com ele, o corpo físico. Há clientes
que somatizam seus problemas emocionais, como se os carregassem
em diferentes partes do corpo.
A Figura 1 é uma representação criada pela
composição de vários casos típicos.
Ela mostra como os sistemas etérico/bioplasmático
e físico podem ser afetados por complexos de vidas passadas
quando estes se manifestam no corpo emocional como sentimentos ou
pensamentos com profunda carga emocional. Os pensamentos inconscientes
que se cristalizam nas histórias de vidas passadas na forma
de complexos estão demonstrados do lado de fora do círculo,
já que pertencem ao corpo mental mais sutil. (Talvez devesse
ser enfatizado que nenhum desses complexos pertence especificamente
a uma determinada parte do corpo; um pensamento depressivo tanto
pode ficar preso às costas quanto à cabeça.)
Figura 1

Usando
alguns dos exemplos da ilustração na Figura 1:
Uma pessoa pode ter recorrentes enxaquecas combinadas, quando entrevistada
com cuidado, a sentimentos gerais de ‘peso’, especificamente
na região da cabeça. A exploração desses
sentimentos pode revelar uma metáfora ou imagem predominante
de ‘peso’, que, quando exagerado, pode produzir o pensamento:
“Esse peso me põe para baixo, está sempre me
oprimindo.” Tal pensamento pode facilmente provar ser o ponto
de entrada ou ponte somática para uma história de
vida passada carregada de culpa, tal como “Eu fugi do massacre
e nunca mais voltei. Eu deveria ter ajudado mês irmãos,
minha família. Não consigo parar de pensar nisso.
Está sempre presente, me oprimindo.”
Outra pessoa pode ter tendões extremamente tensos em suas
pernas, em conjunto a rigidez nas articulações e dificuldade
de caminhar. Quando explorada, a rigidez pode revelar tensão
e raiva contidas nas pernas. Um simples exercício de bioenergética
(Lowen, 1975), ou ma oportunidade de chutar livremente em um psicodrama,
pode revelar imagens de ser arrastada para ser jogada em um calabouço,
assim como pensamentos desesperados: “Como se atrevem a fazer
isso comigo! Vocês não têm o direito. Me soltem.”
Aqui, a raiva contra algum encarceramento injusto ainda está
presa nas pernas.
Ainda outra pessoa pode experienciar extrema rigidez nos tornozelos,
combinada a memórias de ter quebrado os tornozelos em diferentes
ocasiões na vida atual. Mas quando pesquisado mais profundamente,
pode revelar pensamentos sombrios de fracasso, ou de não
ter se esforçado o suficiente, ou de vergonha, de alguma
forma associados aos acidentes e à região dos tornozelos
em geral. Seguindo esses pensamentos enquanto com o foco nos tornozelos,
podemos encontrar uma ponte somática, por exemplo, a um jovem
e inexperiente guerreiro que morreu ainda jovem durante uma batalha,
tendo sido indignamente perfurado nos tornozelos.
Quando mais exemplos forem reconstruídos através da
composição da ilustração, notarão
que os diferentes sentimentos, retratados como pertencentes a partes
específicas do corpo, não são, de forma alguma,
fixos. O jovem guerreiro que acabo de mencionar, poderia ter morrido
por golpes na cabeça e no peito, sem que os tornozelos tivessem
sido afetados; nesse caso, seus sentimentos de tristeza e fracasso
estariam alojados nessas outras regiões do corpo. Toda história
corporal, assim como toda ferida, é muito específica
e individual, e deve ser tratada como tal. Ainda, como as áreas
afetadas do corpo etérico ou bioplasmático são
de determinação múltipla no nível de
vidas passadas, pode haver várias histórias, cada
qual com diferentes matizes de emoções e outras reações
pós-traumáticas para serem liberadas. Além
disso, pode haver interfaces com acidentes ou doenças da
infância da vida atual, todos aparentemente girando em torno
de determinados sentimentos nucleares que caracterizam a questão
como sendo um complexo de vida passada. (Veja mais em Woolger, 1987.)
Limpando os Corpos Sutis das Vidas Atual e Passadas
Anteriormente notamos como os três corpos sutis, ou campos
energéticos, se afetam mutuamente. Segundo essa perspectiva
é muito simples de observarmos como um pensamento (corpo
mental) pode influenciar sentimentos (campo emocional). “Eu
sou um fracasso” pode facilmente gerar algum grau de depressão
em urna pessoa, por exemplo. Além disso, vimos como os sentimentos
podem exercer uma influência negativa sobre uma energia ou
vitalidade do sistema (reduzindo um campo etérico); como
uma pessoa talvez possa literalmente experimentar uma baixa de energia
que pode se manifestar fisicamente, como: pouco apetite, respiração
superficial e difícil, dores no coração e outras
formas de esgotamento.
Esses
princípios, de uma forma ou de outra, são conhecidos
há muito tempo por terapeutas corporais de certas escolas,
especialmente aquelas associadas a técnicas de Biofeedback
(inspiradas pela Ioga), e aquelas influenciadas por Wilhelm Reich.
Já que a perspectiva da psicologia de Reich era basicamente
Freudiana, buscando as origens do pensamento negativo ou do trauma
emocional, seus seguidores geralmente assumem que o óbvio
lugar para procurar é na primeira infância. Mas como
sabemos através de relatórios de sessões de
regressão, o trauma, ou pensamento, ou atitude negativa pode
ter origem em uma vida anterior. A doutrina da Ioga Indiana (veja
o trecho de Zimmer, acima) tem sempre sustentado que disposições
psíquicas ou físicas para a negatividade, para repetir
o trauma e o padrão emocional, são passadas de uma
vida para outra vida pela entidade chamada corpo sutil.
A
perspectiva de vida passada, como mais e mais terapeutas têm
observado, pode freqüentemente acessar espaços que as
terapias convencionais, limitadas apenas às experiências
da vida atual, não alcançam. Casos lógicos
de vidas passadas podem ser complexos, mas as inter-relações
dos três níveis: mental, emocional e etérico,
podem ser observadas operando igualmente através das vidas.
Em outras palavras, princípios reichianos podem ser aplicados
a histórias de vidas passadas de forma efetiva, da mesma
forma em que podem ser aplicados à vida presente na terapia.
Um
pequeno exemplo: Uma mulher de meia idade, a quem chamarei de Verônica,
sofria, desde a adolescência, de uma sinusite aguda. Ela recebeu
todos os tipos de tratamentos médicos, os quais não
surtiram efeito. A psicoterapia convencional revelou uma conexão
entre o começo de sua sinusite crônica e um certo resíduo
de sentimentos de solidão e uma leve depressão. Mas,
na deficiência em encontrar alguma perda ou um óbvio
transtorno emocional na adolescência, a terapia basicamente
fracassou em mudar seus sintomas.
Durante
um workshop introdutório de regressão, Verônica
teve as seguintes experiências: ela se percebeu revivendo
uma vida passada como um jovem inglês que cresceu em um orfanato
e que foi recrutado pelo exército quando estourou a 1ª
Guerra em 1914. Como qualquer recruta inexperiente, sua experiência
em combate foi tragicamente muito pequena. Ele morreu semanas após
sua chegada, em uma trincheira, quando sua unidade foi atacada por
gás de mostarda. O curto período no campo de batalha
e a camaradagem dos companheiros foram uma abertura emocional intensa
para este jovem. Quando Verônica reviveu sua morte, ela teve
um acesso intenso de choro, o qual claramente misturou-se com um
choque doloroso. Quando a cartase, que se estendeu até o
outro dia, acabou, Verônica relatou ter percebido que a intempestiva
morte daquele jovem por asfixia, o impediu de chorar a perda de
seus companheiros.
O
que é extraordinário é que ela também
relatou que sua sinusite sofreu um alívio pela primeira vez
em 30 anos. O luto inacabado do adolescente da vida passada aparentemente
foi reativado quando ela estava na adolescência. Por causa
do trauma, as lágrimas da sua vida passada mantiveram-se
guardadas na sua sinusite. Todos os seus problemas de solidão
nesta vida aliviaram-se imediatamente.
Neste
caso, o que é típico em muitos, o alívio começa
paralelamente nos níveis etérico e emocional. Aconteceu
quando os sentimentos de perda e lembranças traumáticas
tornaram-se conscientes, a partir de uma outra vida, como se chegassem
à superfície espontaneamente. A possibilidade de alívio
dos sentimentos originais de tristeza foi bloqueada pelo trauma
do sufocamento pelo gás, o trauma ficou impresso, juntamente
com o choque no nível etérico na transmissão
do corpo sutil. Quando aliviamos um corpo podemos alcançar
alívio no outro. A sinusite de Verônica vinha ‘imitando’,
ou revivendo, o ataque por um gás fatal juntamente com toda
a tristeza guardada por todos esses anos.
Foi
extremamente importante para Verônica perceber como sentiu
de forma tão intensa a perda daqueles companheiros naquela
vida, e também a conexão entre aquela vida e a vida
atual. Isso completou, a nível mental, a limpeza das cicatrizes
da vida passada. Sem isso ela poderia facilmente ficar no padrão
emocional antigo. Ela agora podia, com a ajuda de afirmações,
reverter os pensamentos negativos como: “eu estou completamente
sozinha, amizades não são para sempre” para:
“eu nunca estou sozinha, amizades se intensificam e duram”.
Estratégias Terapéuticas no Trabalho Corporal
de Regressão
No
trabalho com clientes que apresentaram queixas somáticas
e psicológicas, ou que tinham uma história atual de
doença ou acidente, cheguei a um número de regras:
1.
Escutando o caso, sempre se certifique de que o cliente relate
tudo a respeito da doença ou do acidente, inclusive suas
conseqüências (surdez, necessidade de óculos,
pressão alta, etc.). Pergunte se houve algum transtorno
emocional um pouco antes ou próximo àquela época
na vida da pessoa.
2.
Quando o cliente estiver descrevendo o problema ou sintoma, peça
a ele para descrever o que ele está sentindo no corpo enquanto
faz o relato a você.
3.
Durante a regressão, certifique-se de que o cliente esteja
lhe contando tudo sobre a história do um ponto de vista
do seu corpo e não de um ponto qualquer. (Veja Woolger,
1986)
4.
Durante a sessão, preste atenção a todos
os movimentos físicos. Alongamentos, contorções,
respiração superficial, etc, especialmente quando
um trauma está sendo revivido, emoções estão
sendo desprendidas.
5.
Faça com que as partes do corpo que estão reagindo
à história (como em 3) se expressem fisicamente
ou em palavras, ou ambos. Ex: com as pernas encolhidas, diga:
“Chute, muito bom! Agora deixe suas pernas falarem o que
elas querem falar” O cliente então grita: “Sai
de perto de mim, seu porco!”, chutando a figura brutal imaginária
da história da vida passada.
6.
Quando o cliente estiver relatando uma dor específica ou
um problema orgânico leve o cliente a focar a dor, ou a
região do corpo em questão, levando a mente consciente
do cliente para o âmago da questão, permitindo que
imagens e sentimentos surjam espontaneamente. É útil
usar frases guias como: “Essa dor parece o que? Ela é
profunda ou leve? Ela vem de dentro do seu corpo ou de fora? O
que poderia estar causando essa dor? O que seu corpo sente que
está fazendo?”
A
última técnica, a de levar consciência até
a dor ou área afligida, é uma técnica bastante
conhecida por praticantes da Meditação Budista Vipassana.
Steve Levine confere um grande valor à sua utilização
no aconselhamento de indivíduos que são doentes terminais
(Levine, 1984). Seguem alguns exemplos de como tenho usado essa
técnica na terapia regressiva:
Charlene era uma mulher com uma carreira brilhante, que tinha evitado
a vida toda qualquer tipo de relação que a levasse
ao casamento. Teve uma série de relacionamentos onde os homens
a deixaram por causa de uma outra pessoa, deixando-a com a auto-estima
bastante debilitada. Ela ficou bastante preocupada quando descobriu
que estava com cistos em seus seios e queria evitar a cirurgia,
se fosse possível. Eu fiz com que ela se concentrasse nas
áreas mais afetadas dos seus seios e deixasse vir qualquer
sentimento ou palavras. “Eles são um pouco duros e
sem utilidade. É muito triste. Estou muito cansada. É
como se, no entanto eles estivessem completamente secos. Eu não
tenho nada para dar” Sem alguma direção, ela
se viu em uma cidade industrial no Norte da Inglaterra no começo
do século XIX. Ela era uma jovem sentada de frente para uma
parede, morrendo de fome, com um bebê inutilmente tentando
mamar no seu peito. Ela começou a se dar conta de toda a
extensão da sua amargura e desesperança: “Eu
não tenho nada para dar. Eu e meus seios não prestamos”.
Charlene foi logo capaz de ver que em um profundo estado emocional,
ela rejeitou ela mesma como uma mãe provedora de alimento.
E ela estava carregando esta velha memória de derrota cm
seus seios. Os pensamentos negativos que foram com ela nisso, também
contribuíram para que fosse rejeitada pelos homens. Ela realmente
a rejeitava a si mesma e a função maternal de seu
corpo. Sua terapia foi a de perdoar aquele corpo passado, conversando
com o bebê e reafirmando seu potencial como mãe e como
mulher.
O Caso de Mike - Medo de Falar em Público
Mike
- nome que vou usar - trabalhava como assistente social e sofria
de ataques de pânico terríveis toda vez que tinha que
fazer qualquer tipo de apresentação para seus colegas
em reuniões. Ele relatou que uma hora antes da reunião
ficava completamente nervoso: seu peito ficava apertado, sua respiração
agitada, e tinha fortes palpitações no peito. No caso
de Mike, eu não precisei encorajá-lo a estar atento
ao seu corpo enquanto me descrevia o problema. “As palmas
das minhas mãos estão começando a ficar molhadas
quando falo sobre isso”, ele falou. Ele também descreveu
seu peito e estômago apertados. Perguntei se essas reações
eram novas. Sem saber como, Mike as reconhecia da infância,
lembrou-se de uma dolorosa experiência durante um show de
talentos do qual foi forçado a participar. Os sentimentos
em evidência que estavam presentes agora eram de medo e vergonha.
Ele não conseguia encontrar a memória de alguém
humilhando ou envergonhando-o, nem quando criança nem agora
como adulto.
Segue um trecho resumido de como nossa exploração
a respeito desses sentimentos e reações somáticas
prosseguiu:
Terapeuta:
Bom, o que você sente toda vez que tem uma reunião
com sua equipe?
Mike: Um pânico terrível. Sinto-me
como se fosse morrer (ele toca no peito). Parece que tudo vai se
apagar. Posso sentir meu coração batendo como louco
até quando falo a respeito disso, como agora.
T: Certo... Que pensamento vem junto dessas
sensações? Você está claramente em um
enorme conflito.
M: Que tenho que fazer isso, mas eu não
quero fazer. Oh, meu Deus! Não! Como consigo sair daqui?
(seu estômago parece estar tenso e seus braços começam
a ficar rígidos).
T: O que seu estômago quer falar?
M: Eu não quero fazer isso! Como consigo
sair daqui? Oh, Deus! É esta terrível sensação
de que estou afundando. Meu peito está todo apertado e meu
estômago, parece que vai sair correndo.
T: Fique com essas sensações
e com o que o seu estômago quer falar, apenas siga isso.
M: Eu não quero fazer isso. Eu não
quero ser deixado sozinho. Por favor, não me obrigue!! Não,
não na frente de todos! Estou amarrado, não consigo
sair daqui (ele está visivelmente se mexendo de um lado para
o outro).
T: Vá para uma outra vida. Essas
palavras se aplicam a o que?
M: Eu vejo uma igreja e uma multidão. Sim,
muitas pessoas. Oh, não, eu não quero, não
me obrigue!
T: Diga isso a eles, não para mim.
Fique com as imagens e as sensações do seu corpo.
M: É terrível, estou com medo. Não
vou mostrar meu medo. Eles estão fazendo com que eu chegue
lá. Ajude-me! Minhas mãos! Meu pescoço! Eles
estão doendo muito.
T: O que está acontecendo com você?
M: Eles têm meus punhos amarrados nas minhas
costas. Alguma coisa está tocando meu rosto. Não passo
ver. Agora é o meu pescoço. Eles vão me enforcar!
T: Quero que vá até o final
disso tudo. Vá até tudo ter terminado. A dor vai passar,
mas é preciso liberar isso. Continue falando exatamente o
que está sentindo conforme as coisas vão acontecendo.
A
respiração de Mike intensificou quando ele deitou
contorcendo-se no colchão. Ele relatou que suas mãos
e pés estavam formigando, e o pânico foi aumentando
no seu estômago. Sua luta foi aumentando. Ele estava claramente
lutando contra a execução até o final. Eu o
encorajei a fazê-lo, já que era aí que estava
guardada toda a sua tensão.
M:
Eu não consigo sair daqui. Estou completamente preso. Não
quero fazer parte disso, mas não tem jeito (nesta história
existem também elementos de trauma no nascimento).
T: O que seu estômago está
querendo dizer?
M: Eu não quero fazer isso. Eu não
quero fazer isso. Eu não consigo sair daqui. Eu quero sair.
Mike
luta contra sua morte como um homem que estava sendo enforcado por
alguma razão. Ele sentiu muito formigamento nas mãos,
rosto, pescoço, peito e estômago. Ele chutou violentamente,
reproduzindo tentativas desesperadas de alcançar o chão.
Um enorme alívio etérico aconteceu quando as partes
do corpo que estavam segurando as marcas do trauma no corpo sutil
reviveram aquele momento. Finalmente, seu corpo relaxou quando ele
alcançou o momento da morte naquela vida. Ele chorou e suspirando
disse: “Não tinha nada que eu pudesse fazer”.
Existia mais alívio e abertura em seu peito. Sua respiração
expandiu-se consideravelmente quando o trauma passou.
Nós lhe demos o tempo necessário para que a liberação
de energia fosse completada e para que os sentimentos pudessem ser
expressos e verbalizados. Depois voltamos aos eventos que o levaram
até o enforcamento. Ele lembrou-se de que era um adolescente,
um rapaz que tinha roubado um homem e depois, em uma luta, o esfaqueou.
Ele foi capturado pelas pessoas da pequena cidade e foi levado a
julgamento, onde foi condenado à morte.
Lembrou-se
da cela na prisão, da humilhação pública
e tudo o mais. Um senso de fracasso e pobreza tomou seu peito e
estômago nas últimas horas, antes de ser levado para
o patíbulo. Não é preciso falar que, como um
adolescente, a vontade de viver naquela vida era muito grande, por
isso sua grande resistência e luta ao morrer. Por causa disso,
eu o encorajei a expressar fisicamente todos os aspectos de sua
batalha, para que fosse maximizado o alivio etérico, aspectos
claramente guardados em seu peito e estômago nesta vida.
O
restante do nosso trabalho consistiu em ajudá-lo a dissociar
o velho trauma desta vida presente paralela. Sugeri afirmações
do tipo: “Eu estou com meus pés no chão; Sou
completamente responsável (pelo meu estômago); Estou
orgulhoso do meu trabalho, não existe mais nada do que me
envergonhar”.
Um
outro aspecto interessante da experiência de Mike é
que depois ele se lembrou que muitas vezes ele roubou coisas sem
importância quando criança, sempre sentindo muita vergonha
e baixa autovalia quando era pego. Ele percebeu como inconscientemente
estava repetindo a mesma velha história, testando se roubar
iria ser tão fatal quanto o foi naquela vida. Ele, até
então, nunca tinha conectado isso ao seu medo de falar em
público.
Em outras sessões Mike relatou que estava quase completamente
sem sentimentos de medo em reuniões e que sentia um senso
de grandeza em sua vida em geral, tanto de vitalidade como de força.
O adolescente amarrado e humilhado nele tinha sido libertado. E
o adolescente agora, ao invés de sugar sua energia, estava
lhe dando mais.
O Lugar do Trabalho de Regressão em Psicoterapia
A
remissão dos sintomas de Mike na terapia foi relativamente
rápida; a queixa apresentada era específica e sobre
determinada situação, que não derivava de qualquer
profunda desordem de caráter. As questões de fobia,
em geral, são resolvidas muito rapidamente com essa abordagem,
quando imagens de uma morte violenta ou súbita são
trabalhadas através da imaginação, contanto
que não haja nenhum elemento composto como culpa, remorso
ou vergonha profundos a serem enfrentados. Quando o último
ocorre, haverá necessidade de um trabalho mais demorado,
que pode exigir um tipo de penitência e auto-aceitação;
freqüentemente estamos lidando com fragmentos da personalidade
que Jung denominou de "sombra", ou seja, imagens do ego
que são incompatíveis com nossa auto-imagem consciente.
Nesses casos, como Jung disse, "a personalidade inteira é
desafiada." Uma mulher incapaz aceitar impulsos sádicos
finalmente se viu em uma vida passada masculina como um perseguidor
de bruxas, ordenando a tortura e a queima de mulheres. Isso não
só foi difícil para ela aceitar como próprio,
mas também foram necessários muito remorso e reavaliação
interna antes de ser integrado.
Traumas
de vidas passadas que envolveram muito tempo de abuso como opressão,
escravidão, prisão etc., também podem levar
muito mais tempo para serem resolvidos, pois freqüentemente
deixam profundas cicatrizes psíquicas de desespero, depressão
e anestesia. Tudo o que tem sido descoberto pela Universidade de
Harvard sobre terapia pós-traumática com sobreviventes,
nas vidas atuais, de tortura e totalitarismo se aplica aqui, e a
terapia pode ser bastante longa. (Herman, 1992, Van der Kolk et
al. 1996). Pode ser necessário um trabalho diligente e cuidadoso
com um terapeuta que abrace questões de transferência
como confiança, vergonha, revelação e alienação.
Esse terapeuta pode decidir intercalar sessões experienciais
com seu cliente, conforme necessário, mas sempre dentro da
estrutura de períodos mais longos de terapia convencional,
que mantenha um recipiente seguro para integrar as partes cindidas
do self, permita o luto, crie bons limites para o ego, estabeleça
o amor-próprio e que crie respostas emocionais saudáveis
em geral. (Veja Herman, 1992,: Parte II, "Fases da Recuperação").
O Caso de Dorothy - Relação Sexual Bloqueada
Dorothy
era uma mulher casada com trinta e poucos anos. Ela participou de
um grande número de demonstrações em meus workshops,
onde ela tinha coragem suficiente de dividir com um grande número
de pessoas seus dolorosos problemas. Suas sessões, que foram
gravadas, ajudaram a muitas pessoas, tanto terapeutas como outros
que as ouviram. Apresento a seguir uma versão resumida da
essência do nosso trabalho.)
O
problema que Dorothy se ofereceu para trabalhar conosco era o de
que ela não tinha absolutamente nenhum desejo sexual por
seu marido. Quando ela se sentou para trabalhar comigo, admitiu
sentir um medo enorme de confrontar o problema. Eu pedi que ela
fechasse os olhos e ficasse em contato com o medo, tal qual como
sempre acontece. Não tinha nada a ver com o workshop, mas
era parte da história que queria vir à tona.
Dorothy:
Meu corpo está tremendo, não muito, você sabe,
mas...
Terapeuta: O que está fazendo você
chorar?
D: Eu não sei.
T: Ok. Apenas fique com isso. Respire.
Apenas fale com suas próprias palavras o que está
lhe incomodando profundamente na sua vida, exatamente agora.
D: Eu realmente amo meu marido, mas eu não
tenho desejo sexual por ele. Sinto como se estivesse amparada e
protegida. E tocada. Mas quando chega a hora de ter relação,
é como se parasse, eu simplesmente paro.
T: Fique com esse sentimento: “eu
simplesmente paro”. Como você simplesmente pára?
D: Eu não sei.
T: Você sabe. O que acontece com
seu corpo quando você pára?
D: Fica rígido.
T: Você pode me mostrar isso? (ela
dobra as pernas juntas e puxa os braços) E onde é
que está rígido? Em toda esta parte de baixo, ou em
toda a parte de cima?
D: É. Sinto como se estivesse rígido.
T: Apenas fique com essa rigidez agora.
Você pode exagerar, se quiser. Quais são as palavras
e sentimentos que vêm? Alguma coisa do tipo: “eu não
quero?”
D: Não toque em mim, eu não quero.
T: Fique com esse “não toque
em mim”. Lembre, isso pode ser de outra pessoa, outra que
não é o seu marido, apenas deixe o que tiver que sair,
sair. Eu quero que continue com essas palavras “não
me toque”.
Eu
pedi que ela repetisse isso várias vezes, assim como outras
palavras que pudessem surgir.
D:
Não me toque. Eu não quero... Eu simplesmente não
quero. Eu simplesmente não tenho que fazer isso. (Ela agora
falava com raiva).
T: O que suas pernas estão fazendo?
D: Elas estão presas. Meu vestido foi arrancado.
É longo ... Estou tentando por de volta.
T: Você está tentando por
de volta, e suas pernas estão tentando fazer o que?
D: Apenas tentando ficar firmes.
T: O que suas pernas estão querendo
falar?
D: Eu não sei, mas existe uma espada. Eu
vejo uma espada. E vejo pernas. (Ela está muito tensa, agora).
T: Respire. Seu corpo continua dobrado
e firme. Simplesmente deixe as imagens virem.
T: Bem, o que está acontecendo
com você agora?
D: Vejo um homem. Ele está tentando fazer
sexo comigo e eu não quero.
T: Diga isso a ele.
D: Eu não quero. Eu não tenho que...
Eu não quero!
T: Continue. Alto, o mais alto que quiser.
D: EU NÃO QUERO! Você não tem
que fazer isso. Você não tem esse direito. Ele está
falando que tem esse direito. Ele é meu marido e é
o seu direito. Eu estou falando que não... Eu tenho que pará-lo...
Eu quero bater nele!
T: Sinta isso no seu corpo. Diga todas
as palavras que vierem.
D: Seu cachorro... Eu não tenho que fazer
isso, com você. Eu nunca mais vou fazer isso, nunca mais,
isso não está certo.
Ajudei
Dorothy, despertando-a para como esta frase “eu nunca mais
vou fazer isso” explica toda sua resistência sexual
com o seu marido. Quase que imediatamente ela me relatou que não
estava sentindo mais nada. Eu pedi que ela voltasse e visse o que
aconteceu, e uma cena terrível emergiu. Ela foi morta pelo
marido, aparentemente enfiando uma espada em seus genitais. Tinha
sangue por todo lado. Ela não reconheceu a mulher. Era claramente
uma vida passada. Nas outras perguntas Dorothy estava prestando
atenção à sua tensão nos genitais. Isto
me alertou para o fato de que o trauma não estava totalmente
resolvido. Ainda existia muita mágoa e raiva guardadas, então
pedi a ela que expressasse esse sentimento da sua ferida nas genitais.
D: Ele usou sua espada. Ele é um maldito...
Você é um maldito!
T: Mais alto que puder!
D: MALDITO!
T: Mais alguma coisa para falar?
D: Você nunca mais vai fazer isso de novo!
Dizer
essas palavras diretamente para o marido daquela vida passada é
muito importante: elas pertencem àquele homem, e não
ao marido da vida atual.
Ajudei
Dorothy a ver e lembrar-se de todo aquele sangue, checando se ainda
existiam sentimentos guardados no corpo. Pedi a ela que respirasse
nas partes que pudessem estar sentindo alguma dor, a respiração
ajuda o alívio etérico. Parecia que nós tínhamos
alcançado o centro da ferida, e logo ela falou:
D:
Não dói mais...
T: Você ainda está no corpo?
O que você está sentindo?
D: Essa luz azul e verde, muito bonita.
T: Fique com essa luz. Eu quero que fique
na luz verde e azul, mas também olhe para trás e veja
aquele corpo no chão com todo aquele sangue.
D: Ela não está no chão, ela
está procurando alguma coisa.
T: Eu quero que você tenha consciência
de que você não está mais naquele corpo.
Neste
ponto alcançamos uma oportunidade importante para ela se
separar do trauma completamente. O alívio etérico
parecia completo já que não tinha mais dor e suas
pernas estavam agora relaxadas. Mais ainda, o alivio emocional se
completou, expressando a dor enterrada e a raiva pelo marido cruel
daquela vida. Para ajudar a consolidação de tudo,
sugeri algumas frases:
D:
“Eu não estou no corpo agora. Eu deixo toda a dor que
aquela mulher sentiu partir. Eu deixo ir o trauma das minhas genitais.
Deixo ir todo o trauma do meu corpo”
E
por causa do pensamento negativo “eu não vou fazer
isso de novo” com relação ao ato sexual, eu
pedi que ela repetisse no final da sessão, o que inclui outro
material, a afirmação:
D: “Não tem problema fazer isso de
novo. Não vai me matar dessa vez”.
O
que esse caso demonstra é a possibilidade de trabalhar traumas
graves de forma efetiva, desde que todo o corpo esteja envolvido.
Quando completamente encorajado, o alívio etérico
e emocional podem ser alcançados. Parece doloroso para o
observador, mas para quem está na experiência é
um enorme alívio. Todos no workshop puderam atestar como
Dorothy estava bem depois do trabalho.
Muitos
psicoterapeutas a quem assisti trabalhando com graves recordações
de morte como esta, mandam o cliente sair do corpo quando o trauma
surge, invocando guias de cura, luz branca ou cores, em geral instruindo
o cliente “a apenas observar”. Aparentemente, isso pode
funcionar, mas constatei que, na maioria das vezes, tais estratégias
são meramente temporárias, apenas levam o trauma a
se esconder mais ainda, ou seja, a se aprofundar mais ainda no corpo.
Em essência, isso serve para dissociar o cliente, reforçando,
ao invés de desfazer, uma defesa esquizóide ou dissociativa,
até então necessária, através da qual
o cliente criou uma mensagem para si mesmo "Eu não estou
sentindo isto". A terapeuta californiana Alice Givens, que
se especializou em regressão catártica à infância,
assim como a cenas de abuso em vida passadas, reivindicou que os
fenômenos dissociativos, tão comuns em tais cenas,
como por exemplo, "Eu estou assistindo do teto enquanto ele
faz coisas comigo", exibiam uma forma de auto-hipnose defensiva.
"A vítima está completamente hipnotizada",
ela escreveu, "porque o medo e a dor paralisam os fatores críticos
da mente consciente." (Givens, 1991).
Outro
terapeuta americano muito conhecido, Jack Schwarz, que se tornou
perito em trabalhar com dor física severa, costumava demonstrar
graficamente como é possível se auto-anestesiar áreas
específicas do corpo, postulando que somos capazes de fazer
isso em momentos de extrema tensão (Schwarz, 1980). Ele sobreviveu
a um campo de concentração Nazista onde aprendeu a
fazer isso sob tortura. Ele freqüentemente demonstrava controle
sobre a dor publicamente, hipnotizando o próprio braço
e em seguida perfurando-o completamente com uma longa agulha de
tricô. Como dito também por R.D. Laing: "Eu considero
que muitos adultos estão ou têm estado em um transe
hipnótico: nós permanecemos nesse estado até
um dia despertarmos totalmente e descobrirmos que nós nunca
vivemos." (Laing, 1971)
Com
o caso de Dorothy, vimos que quando ocorreu uma liberação
genuína, em oposição a uma liberação
temporária, ela sentiu paz, o alívio de sua dor genital,
o aparecimento espontâneo (não guiado) de uma luz curativa
azul-verde, e total insight sobre seus sintomas. Na linguagem do
corpo sutil, ela limpou impressões traumáticas antigas,
mantidas em seu corpo nos níveis etérico, emocional
e mental, assim liberando-a para ter uma vida sexual feliz e plena
com seu marido.
Conclusão
A
abordagem baseada em vidas passadas, em relação ao
trauma e aos complexos somatizados, difere da maior parte das terapias
convencionais, inclusive das escolas reichianas, postulando que
a alma é muito maior do que a personalidade do ego; uma posição
defendida fortemente por Jung, James Hillman (1977) e pelas obras
recentes de psicólogos transpessoais. Assim, os traumas que
podem vir à tona, durante a exploração terapêutica
da vida atual, podem conter outros níveis ou ressonâncias
mais profundas. Freqüentemente, a liberação de
traumas, por meio dessa abordagem, é como descascar as peles
de uma cebola. Em outras palavras, nós não apenas
postulamos que a psique é multidimensional, mas que os sofrimentos
da alma existem em uma variedade de formas sutis não restringidas
ao corpo físico ou às restrições imediatas
de tempo e espaço. Tal consciência, difícil
como é para o entendimento dos materialistas, pode nos levar
a profundidades e a elevações surpreendentes dentro
da psique. Comparada às grandes disciplinas psico-espirituais
do Oriente, a psicoterapia ocidental ainda está em sua infância
e ainda está aprendendo a trabalhar com outras dimensões
da alma, como com os resíduos de vidas anteriores, recordações
ancestrais ou a influência da cura espiritual de outros domínios.
E como há muito território ainda não mapeado,
é sábio considerarmos a maioria dos mapas e relatórios,
como este, como puramente provisório, e ficarmos abertos
a fazer revisões constantes, conforme novas perspectivas
forem surgindo.
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